Foto: Nerter Samora
|
|
|
Depois de uma ocupação pacífica, que contou com a compreensão e o apoio de trabalhadores do Portocel, o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Extrativas de Madeira de Aracruz (Sintiema) se colocou a serviço da Aracruz Celulose e mobilizou centenas de homens para agredir índios e agentes de apoio ao movimento, na manhã desta quarta-feira (13), em Aracruz. A chegada da milícia do Sintiema foi defendida pelo vereador e presidente do Sintiema, Davi Gomes (PDT). Esses homens e suas lideranças foram responsáveis por uma manifestação pública de apoio à usurpação das terras indígenas pela Aracruz Celulose que paralisou o Centro de Vitória, no início de novembro. "São mais de 500 trabalhadores. Eles estão com carros de som, e o vereador Davi Gomes, que é presidente do Sintiema, está incitando os trabalhadores a agredirem os índios. Já chutaram a cadeira do Cláudio Vereza, bateram em alguns indígenas e agora estão formando um cinturão para tentar nos expulsar", disse o cacique da aldeia de Caieras Velha, Jaguareté.
Os milicianos do setor extrativo de madeira não quiseram conversar e partiram para cima dos indígenas com violência, independente de idade ou sexo. Além disso, ameaçaram expulsar os índios do porto pela força. O deputado Claudio Vereza (PT) se recusou a participar do movimento de expulsão dos indígenas e também foi agredido. Os representantes do Sintiema deram quatro chutes na cadeira de rodas do deputado.
Depois das agressões a Vereza, aos índios e a representantes de entidades de apoio à luta indígena, os índios recuaram para a área alfandegária, onde estão protegidos por um portão e momentaneamente livres das agressões dos liderados do vereador Davi Gomes.
Além de Claudio Vereza (PT), um dos coordenadores estaduais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Ronaldo Alves, também foi agredido. A Polícia Militar, que está no local, não tentou impedir as agressões, mas está fechando os acessos ao porto, deixando a situação ainda mais tensa.
Os índios ressaltam que em nenhum momento os trabalhadores do porto foram desrespeitados e que têm certeza de que o movimento do sindicato é incentivado pela Aracruz Celulose´. Lembram que os trabalhadores que estavam no local no dia da ocupação, nessa terça-feira (12), reagiram com respeito e até apoiaram a causa indígena. Segundo os Tupinikim e Guarani, muitos estivadores que estavam no local lembraram os anos de luta dos índios, destacando que a Aracruz Celulose já devia ter devolvido as terras que usurpara.
Os Tupinikim e Guarani lembraram que os trabalhadores que estão praticando violência contra os índios não são funcionários do Portocel, mas assalariados da Aracruz Celulose e de empreeiteras.
O risco de um conflito violento é iminente e por isso torna-se cada vez mais necessária a intervenção das autoridades para pôr fim à violência. As ordens para que os milicianos agridam os índios vêm sendo dadas por meio de de uma caixa de som e são repetidas mesmo com os índios isolados na área alfandegária e com a presença da PM. A ação do sindicato foi classificada como covarde pelos índios.
O Batalhão de Missões Especiais se encaminhou para a região mas está aguardando na localidade de Barra do Riacho e só deverá ir até o local para evitar um conflito violento entre as partes.
Os índios prometem resisitir. Apesar do ataque surpresa dos milicianos comandados por Davi Gomes nesta manhã, os índios afirmam que estavam estranhando a ausência de manifestação da empresa e que já esperavam que ela não agiria claramente. Até o fechamento desta matéria, os representantes do Sintiema continuavam no pátio.
Na terça-feira (12), quando os índios ocuparam o Portocel, duas manifestações simultâneas em consulados brasileiros, uma na Alemanha e outra nos Estados Unidos, foram realizadas em apoio à causa Tupinikim e Guarani do Espírito Santo e contra o monopólio de terras da Aracruz Celulose no Estado.
A luta em Brasília
Depois da promessa de que a portaria devolvendo as terras aos índios sairia até o dia 19, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, se reuniu com o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e com a Polícia Federal (PF) para discutir a situação de demarcação das terras indígenas e sobre a ocupação do porto.
Foto: Divulgação
|
|
|
O resultado da reunião ainda não foi divulgado, mas, segundo a assessoria da deputada Iriny Lopes, que se reuniu como ministro nessa terça para debater o mesmo assunto, um parecer da situação deverá ser emitido por Márcio Thomaz Bastos até o final desta tarde.
Desde o dia 12 de setembro de 2006, o parecer da Fundação Nacional do Índio (Funai), favorável à demarcação das terras indígenas e anexado ao processo das terras Tupinikim e Guarani, encontra-se no Ministério da Justiça. O ministro Márcio Thomaz Bastos havia se comprometido, em uma reunião com os índios, realizada no mês de fevereiro deste ano, na Assembléia Legislativa, a emitir a Portaria de Delimitação das Terras até o mês de agosto de 2006 e a homologá-la até o final deste ano, mas até agora isso não aconteceu.
Leia mais:
|