Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'Andar, andei. Mas foi aqui que encontrei o meu caminho'
A longa jornada de um
obsecado pela estética





Cristina Moura


"O segredo de progredir é começar."
(Mark Twain)

As idéias na cabeça de Tião Fonseca movem-se com aquele efeito de luz e cor, algo que ele aprendeu a admirar, desde cedo (aos 18 anos de idade). O cinema, essa junção mágica de imagem e som, povoou o imaginário do garoto, que logo se interessou em conhecer mais o assunto e especializar-se na área de fotografia.

Nesta entrevista, ele desnuda um pouco seu olhar plural de artista plástico, falando sobre as expectativas para 2007, um ano que já vai começar com a finalização de dois documentários produzidos na região norte do Espírito Santo. Os vídeos começarão a ser exibidos na Semana de Resistência Quilombola, em São Mateus, no próximo mês de março.

Junto à Comissão Espírito-Santense de Folclore, Tião Fonseca vem desenvolvendo um trabalho cujo objetivo central parece ser o despertar das identidades. Quando os participantes começam a "se ver", segundo o artista, a missão se completa. A função social da imagem e o exercício de redescobrir a cultura popular provam que está no caminho certo o faro de Tião Fonseca, rumo à sua maior "cachaça", o caminho da arte cinematográfica. Esse capixaba, nascido na Serra, crescido em Guarapari, viajado pelo Brasil e pelo mundo, tem muito o que contar e o que ensinar. Confira.

Século Diário: - Quais são os projetos para 2007?

  
Foto de: Nerter Samora
  
Tião Fonseca: - Estamos em fase de execução. Logo no início de 2007, em março, faremos a primeira Semana de Resgate Quilombola, em São Mateus. Vamos debater a questão do negro, uma questão que está sendo levantada e cobrada pelas comunidades. Somos um grupo composto por Sebastião Maciel, Rogério Medeiros, Apoena Medeiros, Maurício Silva... Vamos apresentar dois filmes, dois documentários, um sobre Ticumbi e outro sobre produção de farinha, ou melhor, sobre a economia quilombola. Também vamos expor treze esculturas de minha autoria, simbolizando treze figuras de destaque na história quilombola, numa luta revolucionária naquela região, em São Mateus.

- Como estão os preparativos?

- A equipe está ainda na fase de construção dos documentários. Já fizemos a pré-produção. Em janeiro, vamos finalizá-los. Depois disso, mergulho no atelier para trabalhar as esculturas. Final de janeiro, em fevereiro, até inicio de março estarão prontas. Está tudo muito apertado, pouco tempo, mas... é assim mesmo (risos). Estamos em fase de trabalho.

- Como está sendo a reação dos quilombolas? Eles próprios estavam, de certa forma, cobrando esse tipo de iniciativa?

- Olha, é um trabalho que já vem se desenvolvendo e eu estou envolvido em várias fases. Há uma intimidade muito grande entre Maciel Aguiar e o movimento negro, o próprio Rogério Medeiros já vem fotografando essa questão... Isso já vem desde quarenta anos de resgate. Maciel é quem escreve, quem registra ou quem descreve essa luta, essa trajetória toda. Nesse movimento, há a participação de líderes e representantes, tanto de lá, de São Mateus, quanto de Vitória. A proposta do vídeo sobre a economia quilombola, já obtive informações sobre isso, agradou em cheio. O tema será discutido pelas lideranças do movimento negro e isso faz parte do processo. Termos informações, partindo direto do seio do movimento.

  
Foto de: Nerter Samora
  
- Mas você também está envolvido em outros projetos.

- Sim, estou pensando, já há algum tempo, em um projeto na região de Santa Cruz, Aracruz. Também será um resgate de algumas figuras folclóricas do lugar, figuras que têm necessidade de contar sua história. Mas isso demora ainda. Também estou envolvido com um projeto no Rio de Janeiro, especialmente na Favela da Maré, no Complexo da Maré, onde já funciona o Cine Pop Brasil. É um projeto de inserção social. Dá instrução a quem quer realizar, quem quer fazer filme. Ensina fotografia, como montar... Eu estou sempre na área de fotografia, de arte. Já há a idéia de se fazer um estúdio na comunidade, também há o desejo de trazer o Cine Pop para o Espírito Santo, para Vitória.

- Daria certo? Quais são as expectativas de participantes?

- Com certeza daria certo. É um projeto de sucesso, já tem dado certo, já deu certo no Paraná, em Minas, agora no Rio... Tudo isso devidamente documentado. Acredito também na participação porque estamos percebendo que está havendo uma certa sede de aprendizado. As pessoas querem aprender a fazer vídeo.

- Querem ser realizadores...

- Todos querem ser realizadores!... Os jovens então... Conheço vários jovens que já não se enxergam mais sem uma câmera na mão. O retorno disso é muito legal. Eu tenho sempre dito o seguinte: dentro do encanto da televisão, dentro do encanto que o cinema já trouxe antes e a televisão confirma, é o fato de você ver naquela janelinha os ídolos. Antes, você não poderia aparecer na televisão se não fosse uma pessoa famosa, se não fosse ator, atriz, diretor... uma pessoa famosa, uma personalidade... Hoje chamam de celebridade... Hoje, com essa democratização, veja só... Fizemos em 2006 dez documentários sobre a cultura popular no Espírito Santo. A Comissão Espírito-Santense de Folclore, com sua equipe de áudio e vídeo, esteve à frente do trabalho. O retorno foi muito bom. Imagine: o filho do congueiro vê o pai na televisão, no mesmo lugar que ele vê os ídolos... as personalidades.

  
Foto de: Nerter Samora
  
- Os ícones...

- Os ícones. O grande retorno do trabalho é esse: a gente começa a diminuir essa distância entre o ícone e a pessoa comum, simples. Então, esses projetos que trazem essa visualização são importantes também por isso. Os vídeos que estão sendo produzidos no norte do Estado, sobre Ticumbi e a economia quilombola, com certeza, trazem isso. Quando fizemos a pré-produção, percebemos que as pessoas ficam interessadas, participam mesmo, se mostram interessadas no processo. A tecnologia envolve, faz isso também. Veja como esses ícones se comportam, na própria televisão, parecendo semideuses. Realmente, é curioso. Às vezes, parece que nem têm pele, parece que são revestidos de outro material... (risos). São milionárias...