Personagens da sucessão




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Sua excelência a diferença e o desnível entre as regiões do Brasil, deverá ser um personagem decisivo nas eleições presidenciais deste ano de 2006.

Também sua excelência, o andar de baixo - como diz Elio Gaspari -, que engloba as chamadas classes "C" , "D" e "E", deverá ser outro personagem decisivo.

A conferir. Mas os indícios já estão presentes nas ruas, nas pesquisas e na mídia. É verdade que as classes médias têm tido papel decisivo nas eleições brasileiras. Mas, desta vez, talvez nem tanto. É uma hipótese, ainda.

Neste momento do processo sucessório, estão em curso as tecituras de duas tramas político-eleitorais.

Uma é a articulada pelo PSDB e tem como "let motive" subjacente a predominância do poder de São Paulo. Converge para uma candidatura paulista. Que poderá desaguar na candidatura do prefeito de São Paulo, José Serra, ou na candidatura do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

É uma tecitura de hegemonia paulista, que agrega segmentos empresariais de peso, intelectuais, lideranças sociais e lideranças políticas, além de uma parcela relevante da mídia. Está em curso.

A outra trama e tecitura importante no momento, revolve-se em torno da candidatura do presidente Lula. Esta, embora tenha personagens paulistas importantes, tem amplitude federalista e busca a atração e agregação das regiões que não integram o chamado "sul maravilha". O Norte, o Nordeste, o Centro-Oeste, pedaços do Sudeste, rincões das fronteiras sulistas do país.

Parece fora de moda, mas não é. Um recorte essencial das eleições de 2006 será este recorte regional. Nada de radical. Nada de delírios de secessão. Mas, ainda assim, um recorte. Uma tentativa de alternância de poder em relação à São Paulo.

Não é de se estranhar. As clivagens (diferenças) regionais são uma componente histórica recorrente e decisiva na política brasileira.

Vamos ver. Já o outro personagem relevante será sua excelência o andar de baixo e os grotões do país. Uma grande maioria do eleitorado que está, já hoje, embalada pelos efeitos do bolsa-família; do novo salário mínimo (maior aumento em vinte anos); da agricultura familiar; da manutenção da previdência rural; do aumento do volume de crédito (o maior em dez anos) - e outras medidas que o governo federal (finalmente) começa a mostrar estado por estado pelo país afora.

Enquanto isto, no plano das elites políticas e dos arcos de alianças, o nó gordio está na tentativa de aliança com o PMDB, cortejado por todos.

Do lado da tecitura da candidatura do presidente Lula, esta (difícil) aliança com o PMDB passa pela melhoria dos índices nas pesquisas, pela questão da verticalização, e pela probabilidade de um lance de ousadia do presidente: reformar o ministério em abril com maior presença do PMDB.

Na prática, como já se comenta em Brasília, se este lance de ousadia vier a ocorrer, o presidente Lula passaria a ser, já em abril, o candidato do PT e do PMDB, além do PSB e do PCdoB, é claro.

Quanto ao PMDB, tudo ainda é especulação e muita água ainda vai rolar. No momento, só o que podemos fazer para entender as suas tendências é prestar muita atenção nas movimentações de lideranças como Renan Calheiros, José Sarney, Jarbas Vasconcellos, Orestes Quércia, Delfim Netto, Itamar Franco, Paulo Hartung, e Eduardo Braga. Sem falar em Aécio Neves e José Alencar, que defendem que a sucessão deveria "passar por Minas" ...

Já quanto à importância das clivagens regionais (a " questão paulista") e do andar de baixo na decisão das eleições, aí podemos ter poucas dúvidas.

Ainda mais porque já se sabe que as eleições de 2006 serão diferentes. Serão as eleições do " pão-com-manteiga", ou seja, das propostas e da cabal demonstração de resultados práticos para a população. E não, portanto, eleições das emoções e das grandes ideologias.

A disputa está na mídia e nas ruas. Vamos, agora, acompanhar as costuras e conchavos. E os sinais das pesquisas qualitativas, mais do que as pesquisas quantitativas.