Vida de Imigrante - Mais um, menos um




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Quando completou 28 anos Lucas deu seu grito de independência. Estava muito jovem para viver amarrado a um empreguinho sem futuro, nove-às-cinco, repetindo a mesma rotina monótona todos os dias, acumulando anos e frustrações em prol de uma aposentadoria distante e também monótona.

Os trinta já o ameaçavam, e o namoro com a Nina estava ficando estável demais. Antes de se enterrar de vez na rotina precisava tentar alguma coisa radical. Apesar dos protestos da família, Lucas juntou os reais, trocou por dólares, pediu dois anos de licença sem vencimento, e partiu para desbravar o desconhecido.

"Quero conhecer a vida no primeiro mundo." Quem não se iludiu foi a Nina, "O Vic não engana nem a mãe, está escrito na testa que ele não pretende voltar," choramingou. O oficial da alfândega também farejou o excesso de espírito aventureiro por trás da fachada de turista. Levado para uma sala especial, a sabatina durou horas.

Reviraram a mala e a vida do Lucas de pernas para o ar. Até ligaram para o pai no Brasil, para confirmar as informações dadas pelo jovem. Trouxe dinheiro? Quanto? Tem reserva de hotel? Qual? E por aí foram eles, incansáveis na arte de destruir sonhos e desmontar ilusões. Mas Lucas estava bem treinado, e a tudo respondeu com a precisão de um político entrevistado na TV.

Oito horas depois Lucas finalmente foi liberado, e adentra o território americano com fé e esperança. Um amigo o leva a Miami Beach, onde tinha feito a reserva de hotel. O dinheiro dava para se agüentar até arranjar emprego e um lugar definitivo para ficar. Lucas adorou a praia, as garotas, o burburinho da noite agitada, o colorido das luzes de néon, os casais de gays.

O amigo perguntou onde havia deixado o dinheiro que trouxe. "Na mala." "No hotel?" espantou-se o amigo experiente. "A mala tem cadeado, e estamos na América, não estamos?" O amigo quase o arrastou pelo braço de volta ao hotel, mas tarde demais. Mala, cadeado e o dinheiro haviam desaparecido. Lucas não quis chamar a polícia, era brasileiro, não acreditava em milagres.

Além disto, era sério candidato a residente ilegal, não queria atrair atenção. O jeito foi ir dormir na casa do amigo, onde já se amontoavam 14 num quarto e sala. O jeito foi esquecer os planos para comprar um carro, teria que limitar suas buscas de emprego a uma área próxima, onde pudesse ir de ônibus ou à pé. O jeito foi aceitar as roupas dos amigos do amigo, e pedir emprestados uns trocados para o sanduíche diário.

Lucas não voltou ao Brasil após o curto prazo que a alfândega lhe deu, nem atendeu aos chorosos apelos da saudosa Nina. Aventura é isso, quanto mais difícil a situação, melhor. Arranjou emprego de garçom numa boite gay e fez amizade com outro garçom que morava sozinho e tinha acabado de brigar com o namorado.