Vitória (ES), edição de 01 de fevereiro de 2006
 
Grupo de diálogo com a Aracruz
não ouve comunidades impactadas


Flávia Bernardes

Depois de receber visita do diretor da Aracruz Celulose, Walter Lidio Nunes, a Fundação Luterana de Diaconia, em Porto Alegre (RS), montou um grupo de diálogo para discutir as posições relacionados às disputas de terras exploradas pela empresa no País. Mas até então não ouviu nem os índios, nem os quilombolas, e nenhuma comunidade atingida pela monocultura do eucalipto.

O alerta foi feito pelo partor Emil Shubert, que atua há anos representando o Fundação Luterana no Estado e defendendo os impactados pela monocultura da Aracruz Celulose. Ele reclama a falta de diálogo não só com os impactados, mas também com os membros da fundação no Estado.

O pastor, que também atua na Rede Alerta contra o Deserto Verde, apesar de não ter sido comunicado sobre o grupo, chegou a enviar uma carta ressaltando as denúncias sobre a expansão das monoculturas e seus inúmeros problemas. Destacou a apropriação de terras indígenas e quilombolas pela empresa, a redução da biodiversidade, a apropriação dos recursos hídricos para fins particulares, a poluição dos rios, córregos e nascentes, e a contaminação pelo uso de agrotóxico.

Na carta, o pastor ressaltou que junto à outras entidades da sociedade civil organizada como o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Estado, as Arquidioceses de Colatina e Vitória, o Ministério Público Federal/ES e políticos, sempre apoiou a luta pela terra indígena. Mesmo assim, em nenhum momento foi informado sobre a formação do grupo de diálogo com a multinacional.

Sendo assim, Emil sugeriu que fossem ouvidos por tal grupo, as comunidades quilombolas e indígenas, a Associação de Coletores e Agricultores de Vila do Riacho, o Movimento dos Trabalhadores Mutilados da Aracruz Celulose, pastores e lideranças das comunidades luteranas atingidas pelo programa de Fomento Florestal da Aracruz Celulose, assim como as 157 organizações integrantes da Rede Alerta. E ainda a Associação dos Geógrafos do Brasil (AGB), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento dos Direitos Humanos e a Pastoral indigenísta Irmãs Combonianas, com o objetivo de conhecer o outro lado da história contada pela multinacional e a Igreja Luterana.

Sem resposta, o pastor voltou a escrever uma segunda carta quase dois meses depois, ressaltando que a empresa estava "condenando os irmãos e irmãs por serem solidários com indígenas e quilombolas através de seus processos de interdito proibitório, ressaltando a tentativa da empresa em oprimir todos que lutam pelo direito que tem a vida, com dignidade e justiça".

Assim, depois de quatro meses da primeira carta, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) respondeu as correspondências em nome do grupo de diálogo com a Aracruz Celulose, dizendo que devido à participação do pastor na Rede Alerta contra o Deserto Verde, as discussões das questões indígenas agora se dariam através da própria Rede Alerta, na qual ele ingressou por opção.

O grupo ainda demonstrou dúvidas ao questionar quem era realmente o representante da questão indígena junto à Igreja, o que demonstra ter sido influenciado pela multinacional, que acusa o pastor de ser um agitador junto às causas indígenas.

Em nenhum momento a carta resposta citou as barbaridades causadas pela Aracruz Celulose no Estado, como apontado pelo pastor, e nem sequer se justificou por ter ouvido apenas a multinacional, ainda que o objetivo inicial do grupo de diálogo seria ouvir posições distintas e entender atitudes relacionadas aos conflitos aqui instalados.

O grupo, que também veio à sede da multinacional em Aracruz, norte do Estado, onde ouviu informações sobre a empresa e suas atividades - sem comunicar ao pastor luterano -, chegou a marcar um seminário para ser realizado em março. Este terá o objetivo de discutir em base ecumênica as questões que suscitam dúvidas sobre os casos de danos ambientais e opressão de povos tradicionais no Estado. A Igreja prometeu convidar os segmentos sociais e comunidades envolvidas.

Com tudo, os movimentos da sociedade civil alertam para que neste seminário sejam ouvidas de fatos as comunidades indígenas, quilombolas e pequenos produtores rurais. Estes temem, que assim como todos os discretos encontros feitos entre o grupo de diálogo e a Aracruz Celulose, as comunidades tradicionais sejam mais uma vez deixadas de lado.


Leia mais:
  • A luta dos índios por suas terras

  •