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Foto: Rodrigo Melo
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E há uma pedra no meio do caminho... O sol não está para qualquer um, nem para o Espírito Santo. Vitória pena num calor escaldante de 42º Celsius de sensação térmica. A vida se torna um pouco mais insuportável e cheia de obstáculos no centro da cidade. Ali, com os prédios que evitam a circulação do ar e a poluição atmosférica agravada por carros e fábricas, o tumulto é maior e muitos ganham a vida com o incômodo dos outros. Garrafinha d'água por apenas R$1.
Numa praça perto do parque mais antigo da cidade, a aglomeração é incrivelmente maior. De longe, o que se vê são três filas na porta de um prédio reformado. Idosos e deficientes físicos para um lado. Os que só querem uma marmita no meio. E para a outra direção, o resto.
Cartola parece embalar o dia: "Habitada por gente simples e tão pobre que só tem o sol que a todos cobre...". Na praça não há sequer uma sombra. Quase 300 pessoas esquentam a cabeça numa fila que chega a demorar 40 minutos. "Por que plantam palmeiras numa cidade que é sol o ano inteiro?", pergunta um apontando para os arredores da praça. Ninguém sabe responder. Possivelmente, nem quem plantou ou mandou plantar.
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Foto: Rodrigo Melo
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| No Salão Amizade aumentou o movimento
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O aposentado Janair Gomes da Silva observa de longe. "Hoje não vou comer, não. Repare bem. Tem até advogado engravatado nessa fila", fala entre risos o homem que chegou a morar quinze dias nos EUA. "Voltei porque não agüentei o ritmo de trabalho destinado para quem é do terceiro mundo". Janair aproveita para contar suas memórias mais íntimas com a culinária, tendo como ouvido o também mineiro Waldir Martins. "Eu trabalhava em um trem e quando caía uma barreira nos trilhos era um problema. Tínhamos de sair catando fruta pelos campos. Eu trabalhava, tinha dinheiro e não podia comer. Ficava dias assim. Hoje já é diferente. Eu não tenho dinheiro e posso comer bem", comenta. A lógica parece estranha, mas Janair refere-se ao único restaurante popular do Estado que vende almoço a R$1, motivo da reunião de tanta gente mesmo sob um calor monumental. O amigo Waldir, que já morou três anos nos EUA - "me arrependo de não ter me casado por lá. Só que ela era muito gorda, pesava 180 kg" - é cliente do restaurante e se empolga ao falar da qualidade da refeição. "Saí da Serra, município vizinho daqui, para pegar uns remédios e vou aproveitar para bater um prato gostoso. O arroz com feijão é de primeira". Enquanto espera, Waldir vê a fila aumentar e o sol castigar.
De dentro do Salão de Beleza Amizade, que tem apenas nove meses de funcionamento, a tímida cabeleireira Suellen Rodrigues observa que o movimento do restaurante aumentou desde a inauguração, há cerca de um mês. "As pessoas chegam às nove horas. E aqui no salão as coisas melhoraram também. Tem mais gente circulando na rua." Em alguns dias, quando o trabalho aperta, Suellen deixa o salão aos cuidados de uma amiga e aproveita para almoçar com as crianças no novo restaurante. "Demora muito fazer comida em casa", afirma enquanto apara o cabelo da aposentada Regina dos Santos, que se desloca constantemente do bairro Alvorada para aproveitar o almoço barato.
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Foto: Rodrigo Melo
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| No calor, quem salva a pele de Jorge de Marchi é a camisa
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"Olha aqui! O ideal seria que abrisse aos sábados e domingos, para que a gente não precisasse passar o fim-de-semana com a barriga no fogão", anima-se a supervisora Alice de Souza ao ouvir o motivo da conversa. Todas as mulheres param as atividades e concordam com a amiga. Enquanto tem o esmalte das unhas retocado, dona Dalvina Monteiro fica grata pelo restaurante beneficiar os habitantes dos morros próximos ao local.
Esse é um dos motivos que faz o trabalhador Jorge de Marchi almoçar ali. "Moro no morro aqui atrás, minha casa é lá no alto e é muito cansativo subir isso tudo para comer. Aproveito e me alimento aqui mesmo, com mais conforto. Pena que demora tanto", afirma enquanto protege a cabeça do sol com a própria blusa. De ouvido na conversa, dona Silvana dos Santos aponta um dos poucos problemas do local. "Tem muito bêbado que entra aí e faz uma confusão só", denuncia com seriedade, acompanhada pelos risos dos que estavam por perto.
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Foto: Rodrigo Melo
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| Um copo d'água salvador
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De dentro do restaurante sai uma senhora com um copo em uma das mãos. "Quem quer água?! Quem está com sede?!". Muitos se manifestam, mas apenas um ganha o líquido salvador. "Ah, meu filho. Eu faço isso porque eu sei o que é aguardar nesse calor para entrar. Sempre que acabo de comer, saio com um copo d'água. Tem sempre alguém precisando", diz a funcionária pública Maria de Lourdes Coelho. Para tentar amenizar o desconforto, assegura que o prefeito encarou quase meia hora de fila quando fez uma visita ao local há alguns dias. "Se a gente fica, ele também tem de esperar", grita alguém.
As pessoas andam e muitas já estão prestes a comprar o tíquete. Na fila dos idosos, se espreme um arisco senhor. Qual o seu nome? Ele ri. "E pobre tem nome?" Lógico. "Então pode anotar. O povo me chama de Clemente". E o que senhor vende nessa caixinha? "O que tiver". E o que tem agora? "Paçoca". O senhor mora onde? "Eu me escondo por aí". A comida daqui é boa? "Rapaz, não sobra no prato, não!". Seu Clemente se apressa, foge do repórter, se serve e aproveita a refeição mais completa do dia.
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Foto: Rodrigo Melo
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| O chefe deixa a cozinha.
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Ao todo, 25 trabalhadores se movimentam para oferecer refeição para 1250 pessoas diariamente. E tudo deve sair no maior dos cuidados. A cozinha ferve de calor. A limpeza é impecável. O chefe Antônio Luis da Silva percebe a grande circulação de interessados no salão e aproveita para ajudar servindo suco. "Faz cinco anos que trabalho nesse ramo e posso dizer que, mesmo sendo direcionado para o povo, a qualidade não fica para trás. E o povo nem quer saber de onde vem a comida. Quer ela pronta. O que não pode é faltar".
A fome aperta inclusive para o repórter e o fotógrafo. Voltam tudo, pagam o tíquete e enfrentam a fila. A dupla bobeia e tem a vez furada por um homem que aproveita a espera para paquerar uma desconhecida. "Você vai à praia?". Quase sem olhar para ele, a moça rebate fulminante. "Não! Sou evangélica!" Ele não desiste fácil. Pergunta se ela vai sempre ali. Silêncio. Ele abandona a investida e concentra-se na quantidade a colocar no prato. De tão cheio, a comida quase cai pelas beiradas.
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Foto: Rodrigo Melo
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| O prêmio
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Arroz, feijão, diversos tipos de salada e carne de boa qualidade compõem o cardápio que tenta atingir as 1250 k/cal por pessoa. Após três horas de apuração, os repórteres se sentam e saboreiam o almoço. Só que no meio do caminho tem uma pedra. Estava posicionada entre os grãos de feijão antes de parar entre os dentes do fotógrafo. O coordenador do restaurante percebe o desconforto, tenta evitar o constrangimento e chama a nutricionista, que apresenta o "intruso" aos funcionários. Sem nada poder fazer, devolve a pedra ao fotógrafo. Na saída, ao saber do ocorrido, a dona do Salão de Beleza Amizade cogita entre gargalhadas: "Vocês foram premiados! Deviam fazer um cordão com isso!" A população sente na pele as alegrias e as dores de um almoço a R$1.
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