Vitória (ES), edição de 31 de janeiro de 2006    
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Um ingrediente popular



Vítor de Azevedo Lopes


  
Foto: Rodrigo Melo
  
E há uma pedra no meio do caminho... O sol não está para qualquer um, nem para o Espírito Santo. Vitória pena num calor escaldante de 42º Celsius de sensação térmica. A vida se torna um pouco mais insuportável e cheia de obstáculos no centro da cidade. Ali, com os prédios que evitam a circulação do ar e a poluição atmosférica agravada por carros e fábricas, o tumulto é maior e muitos ganham a vida com o incômodo dos outros. Garrafinha d'água por apenas R$1.

Numa praça perto do parque mais antigo da cidade, a aglomeração é incrivelmente maior. De longe, o que se vê são três filas na porta de um prédio reformado. Idosos e deficientes físicos para um lado. Os que só querem uma marmita no meio. E para a outra direção, o resto.

Cartola parece embalar o dia: "Habitada por gente simples e tão pobre que só tem o sol que a todos cobre...". Na praça não há sequer uma sombra. Quase 300 pessoas esquentam a cabeça numa fila que chega a demorar 40 minutos. "Por que plantam palmeiras numa cidade que é sol o ano inteiro?", pergunta um apontando para os arredores da praça. Ninguém sabe responder. Possivelmente, nem quem plantou ou mandou plantar.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
No Salão Amizade aumentou o movimento
O aposentado Janair Gomes da Silva observa de longe. "Hoje não vou comer, não. Repare bem. Tem até advogado engravatado nessa fila", fala entre risos o homem que chegou a morar quinze dias nos EUA. "Voltei porque não agüentei o ritmo de trabalho destinado para quem é do terceiro mundo". Janair aproveita para contar suas memórias mais íntimas com a culinária, tendo como ouvido o também mineiro Waldir Martins. "Eu trabalhava em um trem e quando caía uma barreira nos trilhos era um problema. Tínhamos de sair catando fruta pelos campos. Eu trabalhava, tinha dinheiro e não podia comer. Ficava dias assim. Hoje já é diferente. Eu não tenho dinheiro e posso comer bem", comenta. A lógica parece estranha, mas Janair refere-se ao único restaurante popular do Estado que vende almoço a R$1, motivo da reunião de tanta gente mesmo sob um calor monumental. O amigo Waldir, que já morou três anos nos EUA - "me arrependo de não ter me casado por lá. Só que ela era muito gorda, pesava 180 kg" - é cliente do restaurante e se empolga ao falar da qualidade da refeição. "Saí da Serra, município vizinho daqui, para pegar uns remédios e vou aproveitar para bater um prato gostoso. O arroz com feijão é de primeira". Enquanto espera, Waldir vê a fila aumentar e o sol castigar.

De dentro do Salão de Beleza Amizade, que tem apenas nove meses de funcionamento, a tímida cabeleireira Suellen Rodrigues observa que o movimento do restaurante aumentou desde a inauguração, há cerca de um mês. "As pessoas chegam às nove horas. E aqui no salão as coisas melhoraram também. Tem mais gente circulando na rua." Em alguns dias, quando o trabalho aperta, Suellen deixa o salão aos cuidados de uma amiga e aproveita para almoçar com as crianças no novo restaurante. "Demora muito fazer comida em casa", afirma enquanto apara o cabelo da aposentada Regina dos Santos, que se desloca constantemente do bairro Alvorada para aproveitar o almoço barato.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
No calor, quem salva a pele de Jorge de Marchi é a camisa
"Olha aqui! O ideal seria que abrisse aos sábados e domingos, para que a gente não precisasse passar o fim-de-semana com a barriga no fogão", anima-se a supervisora Alice de Souza ao ouvir o motivo da conversa. Todas as mulheres param as atividades e concordam com a amiga. Enquanto tem o esmalte das unhas retocado, dona Dalvina Monteiro fica grata pelo restaurante beneficiar os habitantes dos morros próximos ao local.

Esse é um dos motivos que faz o trabalhador Jorge de Marchi almoçar ali. "Moro no morro aqui atrás, minha casa é lá no alto e é muito cansativo subir isso tudo para comer. Aproveito e me alimento aqui mesmo, com mais conforto. Pena que demora tanto", afirma enquanto protege a cabeça do sol com a própria blusa. De ouvido na conversa, dona Silvana dos Santos aponta um dos poucos problemas do local. "Tem muito bêbado que entra aí e faz uma confusão só", denuncia com seriedade, acompanhada pelos risos dos que estavam por perto.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
Um copo d'água salvador
De dentro do restaurante sai uma senhora com um copo em uma das mãos. "Quem quer água?! Quem está com sede?!". Muitos se manifestam, mas apenas um ganha o líquido salvador. "Ah, meu filho. Eu faço isso porque eu sei o que é aguardar nesse calor para entrar. Sempre que acabo de comer, saio com um copo d'água. Tem sempre alguém precisando", diz a funcionária pública Maria de Lourdes Coelho. Para tentar amenizar o desconforto, assegura que o prefeito encarou quase meia hora de fila quando fez uma visita ao local há alguns dias. "Se a gente fica, ele também tem de esperar", grita alguém.

As pessoas andam e muitas já estão prestes a comprar o tíquete. Na fila dos idosos, se espreme um arisco senhor. Qual o seu nome? Ele ri. "E pobre tem nome?" Lógico. "Então pode anotar. O povo me chama de Clemente". E o que senhor vende nessa caixinha? "O que tiver". E o que tem agora? "Paçoca". O senhor mora onde? "Eu me escondo por aí". A comida daqui é boa? "Rapaz, não sobra no prato, não!". Seu Clemente se apressa, foge do repórter, se serve e aproveita a refeição mais completa do dia.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
O chefe deixa a cozinha.
Ao todo, 25 trabalhadores se movimentam para oferecer refeição para 1250 pessoas diariamente. E tudo deve sair no maior dos cuidados. A cozinha ferve de calor. A limpeza é impecável. O chefe Antônio Luis da Silva percebe a grande circulação de interessados no salão e aproveita para ajudar servindo suco. "Faz cinco anos que trabalho nesse ramo e posso dizer que, mesmo sendo direcionado para o povo, a qualidade não fica para trás. E o povo nem quer saber de onde vem a comida. Quer ela pronta. O que não pode é faltar".

A fome aperta inclusive para o repórter e o fotógrafo. Voltam tudo, pagam o tíquete e enfrentam a fila. A dupla bobeia e tem a vez furada por um homem que aproveita a espera para paquerar uma desconhecida. "Você vai à praia?". Quase sem olhar para ele, a moça rebate fulminante. "Não! Sou evangélica!" Ele não desiste fácil. Pergunta se ela vai sempre ali. Silêncio. Ele abandona a investida e concentra-se na quantidade a colocar no prato. De tão cheio, a comida quase cai pelas beiradas.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
O prêmio
Arroz, feijão, diversos tipos de salada e carne de boa qualidade compõem o cardápio que tenta atingir as 1250 k/cal por pessoa. Após três horas de apuração, os repórteres se sentam e saboreiam o almoço. Só que no meio do caminho tem uma pedra. Estava posicionada entre os grãos de feijão antes de parar entre os dentes do fotógrafo. O coordenador do restaurante percebe o desconforto, tenta evitar o constrangimento e chama a nutricionista, que apresenta o "intruso" aos funcionários. Sem nada poder fazer, devolve a pedra ao fotógrafo. Na saída, ao saber do ocorrido, a dona do Salão de Beleza Amizade cogita entre gargalhadas: "Vocês foram premiados! Deviam fazer um cordão com isso!" A população sente na pele as alegrias e as dores de um almoço a R$1.

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