O que é Steven Spielberg hoje em dia? Estamos há quase 30 anos de "Tubarão", há mais de 20 anos de "E.T." e dos Indiana Jones, há 13 anos de "A Lista de Schindler", entre esses filmes um mundo de outros trabalhos que formam a carreira do mais conhecido cineasta da atualidade. E ainda assim, mesmo sendo ele pleno sabedor e usuário dos domínios cinematográficos, e mesmo sendo nós plenos sabedores e usuários do jeito spielbergiano de fazer cinema, é recorrente a sensação de surpresa em relação a seus últimos filmes. Essa sensação chega ao auge depois de uma sessão de "Munique" (em cartaz desde sexta-feira no Estado), e é ela que aventa uma resposta à pergunta que abre o parágrafo: Spielberg é agora, como nunca foi, um cineasta-problema.
Quando surge no meio dos anos 70, ao lado de George Lucas, como a pedra de salvação de uma indústria à beira da falência, Spielberg literalmente inventa a Hollywood dos blockbusters que conhecemos até hoje. Mas é curioso notar que, mesmo sendo um quase-sinônimo desse cinemão americano, o diretor pose sob a aura de verdadeiro "autor", a moda francesa de se pensar um cineasta que comanda todas as partes da feitura de um filme, imprimindo em cada uma delas uma visão particularíssima sobre o mundo e sobre a própria arte. Se seus primeiros trabalhos reorganizaram o cinema como uma linha de produção industrial, Spielberg foi sempre o projetista do carro, nunca o operário que apenas aperta os parafusos do motor (pensemos em como um filme como "Prenda-me Se For Capaz", apesar do fracasso de bilheteria, mantém em alta a marca de "um filme de Steven Spielberg", enquanto os filmes que realmente fazem a roda econômica hollywoodiana se mover, os suspenses adolescentes e as comédias rasteiras, são produzidos por diretores-operários cujos nomes ninguém se dá o trabalho de lembrar).
Não há nenhuma relação imediata entre este dado sobre a postura de Spielberg dentro do cinema americano e o tratamento que o diretor dá à "Munique", mas chama atenção que seja justamente partindo de uma "lógica industrial" que o diretor inicie seu caminho dentro do tema espinhoso do massacre de atletas israelenses por parte de uma milícia palestina nas Olimpíadas de 1972. Quando decide centralizar sua história no grupo de agentes secretos que o governo de Israel forma para caçar e matar os palestinos envolvidos no atentado, o diretor faz questão de sempre sublinhar a relação comercial que se estabelece entre ambas as partes. Há o ataque contra um povo, há a revolta contra a morte de atletas inocentes, há o ímpeto de responder à altura uma ação dessa natureza, há ainda o espírito patriótico dos agentes que aceitam caçar os suspeitos. Mas para Spielberg isso tudo é apenas pano de fundo, pois o que importa mais são os termos desse contrato e como eles afetarão a vida dos envolvidos.
Ao líder do grupo, Avner Kauffman (Eric Bana), é constantemente atribuída uma "não-existência": o trabalho de assassinar em nome de um governo é sujo demais para que seja exposto abertamente, e por isso tudo é feito por debaixo dos panos, ninguém conhece ninguém, todos são ignorantes quanto às provas que evidenciem a ligação dos suspeitos com o atentado. Verdadeiros operários de guerra, Avner e seus parceiros são a expressão de um fordismo militarista, peões dentro de uma linha de montagem, cada um com uma função específica, nenhum deles possibilitado de transcendê-la e observar o quadro geral - não há nação, nem governo, nem exércitos em "Munique", não há processo de paz, não há nem mesmo "judeus" ou "palestinos", há apenas trabalhadores invisíveis cumprindo uma tarefa.
Este já seria um passo adiante para Steven Spielberg, que em seus filmes costumava privilegiar aqueles que ficam no topo da cadeia social (o ricaço que salva judeus da morte, e não os judeus que estão morrendo; o capitão que parte em missão nobre para resgatar um soldado, e não o próprio soldado que precisa ser resgatado). O diretor, no entanto, vai mais longe. Numa das mais brilhantes seqüências de "Munique", coloca dentro de um mesmo esconderijo os matadores israelenses e um grupo terrorista palestino, sem que um saiba da real identidade do outro. O esconderijo é um casebre em ruínas, sujo e fétido, e dentro dele duas porções de pessoas que, apesar de lados opostos, cumprem o mesmo destino: são marcados pela invisibilidade, ainda que seu trabalho seja visível e notável pelo mundo inteiro. Não é uma busca simples pela polêmica ao igualar agentes oficiais (israelenses) a terroristas (palestinos). O que Spielberg parece dizer é que a História se realiza mesmo nos subterrâneos, guiada pelos escalões mais altos da linha produtiva, mas realmente levada a cabo pelos operários cuja única marca perceptível é um número numa estatística.
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Foto: Divulgação
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Isso já bastaria para fazer de "Munique" um grande filme. Mas a tal marca de autoria de Steven Spielberg precisava ainda aparecer de alguma forma, e não é estranho que uma parte significativa da trama se localize na família de Avner, sendo a família o grande bastião moral dos filmes do diretor americano. Coerente com as noções que espalha na parte política da narrativa, a derrota das instituições (nação, exército, pátria) atinge também o núcleo familiar - o que não é novidade na filmografia recente de Spielberg, que desde o fundamental "A.I. - Inteligência Artificial" já vinha minando suas bases. Mas até "Guerra dos Mundos" a família ainda resistia como um porto seguro, não só às ameaças do mundo mas também aos riscos criados por seus próprios integrantes. Em "Munique" ela segue sendo um porto, mas já não há qualquer expectativa de segurança em seu seio. Este novo paradigma se expressa tanto no clima de terror que se instala num Avner destruído pela dureza de sua missão e que se reflete na paranóia de uma suposta perseguição à sua família (pensemos nesse trecho final do personagem de Eric Bana como o estágio depurado do mesmo sentimento presente na memorável participação de Tim Robbins em "Guerra dos Mundos") quanto pela sinceridade quase cruel das palavras que a mãe do agente usa para acalmar seus ânimos durante o nascimento de sua filha.
É o próprio dilema contemporâneo da escolha entre liberdade e segurança que está no centro nervoso de "Munique". Se o mundo que cria parece o tempo todo clamar pela última (ainda que sem sucesso), a opção de Steven Spielberg, cineasta, parece ser a primeira. Seu filme é cheio de extratos, e para onde quer que olhemos estarão lá alguns pontos abertos, algumas questões pungentes demais para que seu ímpeto apaziguador tente resolvê-las. É mesmo a idéia de resolução que parece abandonada, e nesse sentido o plano final de "Munique" é o grito maior de uma consciência meticulosamente trabalhada durante toda a narrativa, aquela mesma consciência expressa no verso de uma canção de Chico Buarque que diz que a História é um carro que atropela indiferente todo aquele que a negue. Steven Spielberg não a nega, e usa essa liberdade conquistada para definitivamente reinventar-se, mesmo depois de 24 filmes e de uma carreira que não precisava mais dar nenhuma prova de força. Já o mundo que produziu os atentados de 1972 e que os revisou constantemente até os atentados de 2001, este segue sendo atropelado sem se dar conta de seus tropeços. E é bom saber que existe mais um cineasta (e um dos grandes) observando de perto os percalços desse caminho.
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