Falar em disco lançado por artista situado no Espírito Santo já é passar por cima da qualidade de gravação. Os estúdios são bem equipados e a técnica já está aprendida. Fica então, análises da produção e do andamento do próprio artista.
Na capa e nas páginas internas do encarte do seu mais recente disco, a cantora e compositora Dennise Pontes põe em primeiro plano alguns colares. Na capa, Dennise veste um. Atrás, outro multicolorido. O estranho projeto gráfico do disco, sem uma estética bem definida, com fotos que confundem a leitura das letras, por exemplo, denuncia a atmosfera das canções.
É inevitável ouvir os primeiros segundos do disco e não remeter a atmosfera à cantora Ana Carolina, por exemplo. Mas são comparações inevitáveis, para criação de parâmetros.
Em "Música Lírica", primeira faixa de seu mais recente disco, Dennise amplia as referências e cita Monet. A letra, como aparece em todo o restante do álbum, vira apenas mero coadjuvante, mais um arranjo de produção. "Na boca louca / beijo boca louca", escreve e canta Dennise sem maiores complicações.
O excelente timbre do violão de Felipe Novaes não chega a ser prejudicado pelos clichês nos arranjos da percussão, como pau-de-chuva na primeira faixa, que anuncia mudança no estágio da música.
Porém, há casamento quase perfeito entre violões e percussão grave em "Encruzilhada", numa costura dita, inclusive, no nome da canção. Porém, o exagero volta a aparecer no ilustrar pela percussão quando Dennise canta que "Tocou pandeiro até ficar com a mão inchada". Ao fundo, o som do instrumento já "ilustrado" pela letra.
No disco, Dennise evoca nações e santos. O lado bucólico por vezes flerta com a programação eletrônica e arranha na demorada vocalização de abertura de "Tempestade Vai". Tantas referências em instrumentos e identidades justificam o samba "Ando Bem". O disco parece enunciar a existência do gênero, perdido entre as 13 músicas. Um samba-soul com válido jogo vocal.
A percussão volta a querer criar uma ambientação, que é desnecessária, na música "Toda Chuva". A idéia se concentra na letra e não precisa ser extrapolada literalmente pelos instrumentos. A mesma produção acerta na cadência da faixa 6, um funk sem exagero e caricaturas na levada musical, sendo suavizado pelo pandeiro meia-luz.
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Foto: Divulgação
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"Corazón Arrebatador", uma das melhores faixas do disco, apresenta uma bela vocalização, com suaves e bem colocadas passagens entre os pedaços que compõem a música. O torto espanhol no final da letra não compromete o resultado final da faixa, dando um charme à obra, finalizada por um consistente solo de violão, que é surpreendido pela força da música seguinte, "Através de Você".
Em determinados momentos, o silêncio se faz necessário e a percussão acaba com certos momentos de reflexão, como os insistentes solos entre o cantar no início de "O Mundo Gira". A quebra de continuação rítmica também se dá em "Seu Olhar" e nos bem-situados contratempos de "Não Se Pode Fugir do Amor". Para encerrar o disco, a balada "Tanto Tempo", a fazer sucesso em apresentações intimistas. Novamente Dennise se amarra ao literal em suas letras, não deixando que o mistério conquiste o ouvinte. Tudo aparece muito às claras em termos de letra e arranjo.
O homônimo disco de Dennise Pontes corre o risco que agrava a carreira dos artistas e bandas que vivem no Espírito Santo: terminar apenas na prateleira dedicada aos artistas da terra. Para apreciar a força e potência vocal da cantora, ainda é melhor conferir um show ao vivo, onde ela se solta, improvisa e dribla bem as adversidades.
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