Vida de Imigrante - O discurso de Bush e o Brasil




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


No Brasil o mês de fevereiro é marcado pela tradição obrigatória do carnaval. Nos Estados Unidos, fevereiro é marcado pelo discurso oficial do presidente ao país, o que eles chamam de Situação da Nação. Talvez os dois, o carnaval brasileiro e o discurso americano, tenham alguma coisa em comum.

Os jornais chamam esse discurso obrigatório de "ritual monótono," onde o presidente tem que dizer que o país está cada vez mais forte e a economia cada vez melhor. O discurso é o evento político mais importante do ano, não apenas pela tradição que o cerca, mas também porque o presidente tem que prometer alguma coisa.

Como o discurso do dia do trabalhador, em que nosso presidente obrigatoriamente deve aumentar o salário mínimo, nesse discurso oficial o presidente americano tem que anunciar alguma medida diferente e importante. Com a guerra do Iraque empacada num beco sem saída, a economia caindo e o desemprego subindo, a popularidade do presidente está em baixa.

Ele precisa propor alguma medida simpática e radical para tentar fazer subir o termômetro de sua popularidade. Nada tendo para usar como tábua de salvação, Bush apela para a proteção ambiental. Sua única chance é prometer diminuir a compra de petróleo do Oriente Médio com medidas alternativas, como a gasolina vegetal.

Quem poderia imaginar que, nesse momento tradicional americano, nosso modesto Brasil esteja sendo citado como exemplo, não pelo presidente, mas pela imprensa. A frase mais repetida do discurso de Bush tem sido o lugar comum, "a América é viciada em petróleo". Mas reconhecer o vício é fácil, acabar com ele é complicado.

O grande mérito do discurso desse ano foi a promessa de energia independente, através de três metas: gasolina mais barata, diminuição da importação do petróleo do Oriente Médio, e melhoria do meio ambiente. E aí entra o exemplo brasileiro.

Os analistas do discurso dizem que Bush errou, não se referindo ao etanol brasileiro que está sendo mantido fora do mercado americano por tarifas protecionistas. Os jornais americanos perguntam por que o presidente não derruba essa tarifa, pois importando nosso álcool ele alcançaria esses três gols facilmente.

O etanol de celulose que Bush pretende implantar no país não tem as mesmas vantagens do etanol de cana de açúcar. Os jornais denunciam que, impedindo a entrada do etanol brasileiro no país, Bush deixa que os interesses políticos se sobreponham aos interesses da nação, agredindo o meio ambiente e mantendo o poder da OPEC.