Vitória (ES), edição de 06 de fevereiro de 2006    
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GRANDES e pequenos Homens
ou
como nós chegamos a este ponto?



Heraldo Ferreira
Atualizado toda quinta-feira, às 16 horas


Como vocês já devem ter percebido, não me encaixo bem no abominável e incompreensível rótulo de arquiteto de mercado (se é que isso devesse existir realmente!). Não que eu não me venda, o problema é que pouca gente quer me comprar. Como já disse numa coluna, a boa arquitetura tem poucos clientes (digo isso sem medo de pecar pela "modéstia"!).

Mas para não fazer como aquela criança que todos nós já fomos um dia (alguns a são até hoje...), que nunca experimentou fígado ou espinafre mas que torce o nariz quando vê e diz não gostar, resolvi me associar a um arquiteto renomado no mercado imobiliário capixaba (não vou citar seu nome por razões óbvias) para tentar entender/decifrar sua lógica.

Alguém pode me perguntar se não seria mais fácil ler O Capital do Marx. Ao que eu respondo de pronto: NÃO! Primeiro são quatro volumes gigantescos escritos em economês e depois que gosto de apreciar a fauna humana, quase que com o mesmo interesse e prazer que Darwin deve ter sentido ao encontrar aquelas tartarugas imensas em Galápagos.

Pois bem, ontem fui chamado para uma reunião com um cliente deste arquiteto. Cheguei mais cedo e, como ele estava atendendo um outro cliente (depois descobri que era o dono de uma construtora), esperei por alguns minutos numa ante-sala. Dava para ouvir tudo, mas a princípio o assunto discutido não me interessou muito. Minha sorte é que nesta ante-sala se encontra uma estante cheia de livros de arquitetura. Dei uma passada rápida e escolhi um sobre as obras completas do Oscar Niemeyer.

Aos poucos fui me dando conta da situação inusitada quase surrealista em que estava. Imerso num texto delicioso cheio de figuras e homens grandiosos num tempo heróico da arquitetura brasileira e ao mesmo tempo sendo bombardeado com a conversa que acontecia ao lado. André Malraux comprando uma casa em Laranjeiras por R$ 250.000,00, O Palácio da Alvorada custando R$ 500,00 por metro quadrado, o Carlos Drummond de Andrade pegou um financiamento para comprar um "dois quartos" em Jardim Camburi, MEU DEUS!!! Tudo bem que o capitalismo tem a sua lógica baseada na acumulação do capital (não é preciso ler Marx para saber disso) mas deve existir um limite para o aviltamento e para a cretinice.

Quis ser arquiteto não porque sabia desenhar, mas porque gostava de matemática e de arte. A arquitetura é feita não só de números, a poesia é tão ou mais importante. E é por isso que as cidades estão neste estado, todas parecendo um grande subúrbio, desses que a gente vê quando passa pela BR, ali em Cariacica. Porque os homens que efetivamente constroem as cidades são pequenos, mesquinhos, tapados e ignorantes. Não têm visão de futuro, não são artistas, não gostam de arte, não sabem nada de arte. Quiçá sabem de matemática, matemática avançada, que é utilizada em cálculos de estrutura, de astrofísica, de física quântica. Devem ter uma calculadora "made in China" que só têm as teclas de somar e multiplicar, pois arrancaram a de dividir e subtrair.
***

"Peregrina Paloma imaginaria
Que enardeces os últimos amores
Alma feita de luz, de música e de flores
Peregrina Paloma imaginaria"

***

Sugestão de leitura: A Forma na Arquitetura, Oscar Niemeyer, Editora Revan

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E-mails para o colunista: acolunadoarquiteto@hotmail.com


 

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