Há que se tomar certo cuidado ao aplicar em "O Segredo de Brokeback Mountain" (em cartaz no Estado desde sexta-feira) o rótulo de faroeste. Os resquícios desse gênero, tão intimamente ligado à tradição cinematográfica americana, nunca passam disso no filme de Ang Lee, pequenos detalhes que, apesar de notórios, nunca são assumidos como a questão central da narrativa. Muito já se falou do caráter transgressor de uma história que coloca dois caubóis, símbolos máximos da América profunda, numa relação homossexual que revolve as definições mais arraigadas dessa personagem clássica. Essa impressão, hoje generalizada, de um país mergulhado em paradoxos, ao mesmo tempo terra da liberdade e berço do mais canhestro conservadorismo, já foi tratada muito mais frontalmente pelo diretor taiwanês em seu "Tempestade de Gelo", e apesar de aplicável a seu novo filme, em "Brokeback Mountain" essa impressão é apenas um dos aspectos de uma história muito maior.
Outro adjetivo freqüentemente atribuído ao novo filme de Lee garante que a história de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) é universal: ainda que trate do amor entre dois homens, poderia ser facilmente aplicada a qualquer amor proibido, entre duas mulheres, entre religiões ou raças distintas. Típica lorota marketeira que visa unicamente laçar aquela parcela do público arredia a esse tipo de história, essa suposta universalidade não esconde a real matéria-prima do filme. É bom que o espectador não se engane: "O Segredo de Brokeback Mountain" é, fundamentalmente, um filme sobre a homossexualidade masculina, tratada com abrangência e propriedade poucas vezes vistas anteriormente - o crédito dessa postura diante da história precisa ser dividido entre Ang Lee e a escritora Annie Proulx, autora do conto que deu origem ao filme e que o diretor respeita quase integralmente na transposição para o cinema.
Personalidades distintas, com convicções e passados diversos, a ligação estabelecida entre Ennis e Jack desde os primeiros minutos do filme é sustentada na base confusa de um amor transbordante cuja dimensão física mais imediata é a brutalidade. Quando fazem amor pela primeira vez, tocam-se como quem se prepara para uma briga, e ainda assim não duvidamos que estes toques sejam formas de carinho. O auge dessa ambigüidade se dá no último dia da temporada que passam em Brokeback, numa briga real com socos e agarrões, da qual ambos saem feridos. Nesse momento os caubóis percebem que, mais que lutar contra sua natureza íntima ou simplesmente ceder a ela, é preciso aprender a andar por esse novo trilho, e que já não é mais possível fazer isso sozinhos. Ennis e Jack, como Ray Smith e Japhy Rider em "Os Vagabundos Iluminados", livro de Jack Kerouac, descobrem no isolamento de uma montanha a ligação entre uma existência menor e as experiências de um universo cuja verdade transcendente abriga mesmo aqueles que, no mundo lá de baixo, estariam infringindo alguma regra. Se no romance beatnik Smith e Rider, dois amigos hippies zen-budistas, sobem o Matterhorn da Califórnia para buscar a iluminação, Ennis e Jack na montanha Brokeback fazem um caminho parecido: lá no alto descobrem um amor, e fazem dele seu nirvana.
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Foto: Divulgação
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Não é de se estranhar que Ang Lee tenha exigido que o nome "Brokeback Mountain" fosse mantido em todos os países em que o filme for lançado, só se podendo acrescentar algumas palavras ou no máximo um subtítulo. Tradução localizada de uma sensação de liberdade emocional única, a montanha é o berço desse processo de iluminação pelo qual passam os caubóis. Mesmo que, depois do primeiro encontro, os dois nunca mais voltem a Brokeback, começam a fazer de outros lugares, de lagos onde pescam, motéis baratos ou até mesmo a própria casa de Ennis, suas versões da montanha. A relação se expande, e ambos sabem que sobre ela pesam os fantasmas de um preconceito cruel - e o filme é primoroso ao tratar desse tema quando Ennis Del Mar se lembra de um fato ocorrido em sua infância, seu pai o levando para ver o corpo dilacerado de um homem cruelmente assassinado unicamente porque vivia com outro homem. Para Ang Lee e Annie Proulx, o preconceito contra a homossexualidade é um fator estritamente cultural, uma educação do desrespeito às diferenças que nos é ensinada desde pequenos, e que desde ali precisa ser combatida.
E assim seguem Jack Twist e Ennis Del Mar. Ambos se casam e têm filhos, e é no contato com a paternidade que se revelam os primeiros reflexos de sua relação. Ainda que fracassem como maridos, os caubóis em nenhum momento passam por maus pais. Pelo contrário, estão sempre dispostos a enfrentar adversidades (a falta de dinheiro para Ennis, a presença opressiva do sogro para Jack) para se mostrarem íntegros e envolvidos com seus filhos. Essa outra faceta do amor, paternal e livre de brutalidades, surge no filme como um desdobramento daquele primeiro sentimento, rústico e indomado, surgido na montanha. Porque em "O Segredo de Brokeback Mountain" o amor entre dois homens surge como a possibilidade de expansão da capacidade afetiva para campos muito maiores do que antes lhes era conhecido. Pensando bem, todo o jogo de marketing em cima do filme deve continuar a ser jogado, e que as salas de cinema dos shoppings país afora fiquem lotadas. Não se passa imune pela montanha Brokeback. Ennis, Jack, e nós espectadores, todos saímos de lá um pouco transformados.
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