Vitória (ES), edição de 06 de fevereiro de 2006    
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Casa Porto estuda recuperação de acervo



Felicia Borges



Na última semana, o capixaba Paulo Herkenhoff deixou o cargo de crítico e curador que ocupava no Museu Nacional de Belas Artes e criticou o estado precário em que o prédio histórico se encontra. Invertendo o que talvez seja a realidade de vários museus do país, a Casa Porto inicia um trabalho importante para a preservação da sua história.

  
Foto: Divulgação
  
Ainda este ano deve acontecer a restauração do espaço da Casa Porto de Artes Plásticas, preservando todas as características do prédio, datado de 1903, e a adaptação do espaço para o funcionamento do museu. A intenção é implantar no local um centro cultural. No projeto estão previstas obras como um ateliê de artes, um bar-café, um espaço para sala técnica e de curadoria, uma sala de higienização ou de reserva técnica, que é onde são preservadas as obras que fazem parte do acervo do museu, salas de exposição, um mini-auditório, biblioteca, salas de leitura e de oficina.

Esse é, sem dúvida, um grande e importante passo não só para o museu como também para o Estado. A proposta seguinte, após a restauração do prédio, é a de catalogação do acervo, que atualmente encontra-se em péssimas condições de preservação, com algumas obras deterioradas.

Segundo a coordenadora da Casa Porto, Samira Margotto, existe atualmente uma preocupação crescente com a documentação nos museus brasileiros. Como exemplos ela cita os Projeto Simba (Sistema de Informações do Acervo do Museu Nacional de Belas Artes), que teve inicio em 1993; o projeto Portinari, que está catalogando todas as obras de Cândido Portinari; e o Guignard, ainda em execução.

"Assim como o Museu Nacional de Belas Artes, a partir de 1993 passou a sistematizar todo o acervo dele dentro de um mesmo padrão de catalogação, agora a gente está tentando ver qual vai ser o nosso padrão, qual iremos propor para a Prefeitura. Mas tudo está tudo em fase ainda embrionária. A gente está reformando primeiro o prédio para depois fazer uma proposta e formalizar isso", diz Samira.

De acordo com Samira, a catalogação de obras é um processo lento, porque é necessário muito cuidado para que não saia nada errado. "Na arte contemporânea não se tem tanto mais uma separação entre pintura, gravura e colagem, por exemplo. Os artistas usam técnicas e suportes diferentes, que requerem um tempo de envelhecimento, uma umidade diferente", explica, o que exige, portanto, um cuidado maior com a obra.

O passo seguinte de museus que já têm a catalogação das obras pronta é a conservação preventiva do acervo, intervindo nos agentes que deterioram as peças, como calor, umidade, luz, pessoas, retardando e, algumas vezes até, evitando a restauração.

Acervo

O espaço abriga parte do acervo que pertence à Prefeitura Municipal de Vitória. "A Casa Porto começou mesmo em 99. Então ela tem um período relativamente pequeno de tempo de funcionamento. Mas sempre foi uma política de aquisição de acervo. Toda vez que tem uma exposição aqui, em troca de ter dado o espaço, feito o coquetel, mantido toda essa estrutura para o artista, pede-se que o artista deixe uma obra", explica Samira.

Também fazem parte do acervo da Casa Porto, obras que foram expostas no Salão de Arte de Vitória e no Salão do Mar. "No Salão do Mar a gente tem a política de prêmios aquisitivos. Os três primeiros lugares e o prêmio do júri popular são prêmios de aquisição, o que significa que passam a pertencer ao museu. Então, com isso, a gente está conseguindo formar um bom acervo de arte contemporânea", fala Samira.

Entre os trabalhos que fazem parte do acervo da Casa Porto estão obras de diversos artistas capixabas ou que desenvolvem aqui sua arte, como Julio Tigre, Bernadette Rubim, Fabrício Coradello, José Cirillo, Maruzza Valderato, Julio Schmidt, Rosindo Torres, entre outros. Além de obras de artistas de outros estados e de renome nacional, como Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi e Cícero Dias.

Valorização

Um museu tem como função preservar, pesquisar e comunicar sobre o patrimônio cultural, o que será base para a pesquisa científica e a comunicação que irá gerar e disseminar todas as informações.

No Brasil, a preocupação com o patrimônio histórico e acervo artístico é bastante recente, diferente dos países europeus, que são bem mais antigos. Para a chefe de equipe de Análise de Projeto da Secretaria Municipal de Cultura, Carolina Lopes, já está acontecendo uma mudança e o brasileiro vem demonstrando um interesse maior pela sua história. "Nos grandes centros, como na Europa, por exemplo, não é preciso trabalhar a importância do patrimônio histórico. O brasileiro está começando a perceber como é importante conhecer e preservar a história. Isso está acontecendo e Vitória está começando a dar muito valor a isso".

Casa Porto

A Casa Porto de Artes Plásticas iniciou seu funcionamento em 1999 e desde então já sediou várias exposições. O Salão do Mar, principal evento do museu, partiu da vontade do Capitão dos Portos do Espírito Santo, Nelson Lanza Pires de Oliveira, de abraçar a causa e o pensamento nas artes plásticas, com um evento de cunho contemporâneo que atenda a comunidade artística capixaba e mineira. Este ano, o Salão do Mar vai ser pela primeira vez nacional e permitir obras de todos os campos das artes visuais.

O museu está localizado no prédio que abrigava a Capitania dos Portos do Espírito Santo, na Praça Manoel Silvino Monjardim, no início da Avenida Jerônimo Monteiro, no centro de Vitória. O prédio foi construído em 1903 para servir de residência do casal Manoel Silvino Monjardim e Ursulina Guaraná Monjardim. Na década de 20 foi residência particular do prefeito da cidade, Antônio Pereira Lima. Em 1967 foi alugado para a Capitania dos Portos do Espírito Santo, permanecendo por um período de trinta anos. Em 1999 foi emprestado pela Capitania à prefeitura de Vitória para a realização da exposição comemorativa dos 448 anos da cidade.

Programa de Preservação de Acervo com inscrições abertas

Consciente da importância da preservação do acervo histórico nacional, no ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) selecionou 49 projetos de treze estados do país para o Programa de Preservação de Acervo, desenvolvido em cooperação com o Ministério da Cultura, por meio do Departamento de Museus e Centros Culturais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Demu/Iphan).

  
Foto: Divulgação
  
Desenho que ilustra o projeto de reforma da Casa Porto
O Programa foi lançado em 2004 e recebeu 265 propostas de pedido de apoio no valor total de R$ 68,6 milhões. Entre os projetos aprovados estão os dos museus Comunitário Mãe Mirinha do Portão, na Bahia; de Arte da Pampulha, em Minas Gerais; Emilio Goeldi, no Pará; do Homem Americano, no Piauí; Julio de Castilhos, no Rio Grande do Sul; de Biologia Mello Leitão, no Espírito Santo; Metropolitano de Curitiba, no Paraná; de Arte Moderna de São Paulo; e de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A lista inclui, além de museus, universidades, arquivos públicos, centros culturais, acervos raros e coleções de fotos históricas.

Os critérios de seleção e avaliação consideraram a importância do acervo para a difusão do patrimônio cultural brasileiro; clareza, justificativa e pertinência do projeto; exeqüibilidade do cronograma; adequação físico-financeira; e os impactos regional e institucional do projeto.

O Programa de Preservação de Acervos foi criado visando estancar o processo de deterioração e aprimorar a guarda do acervo documental, bibliográfico, museológico e arquivístico no Brasil. Anualmente é realizada seleção pública de projetos. As inscrições para a Seleção 2005 estão abertas entre 22 de dezembro de 2005 e 17 de fevereiro de 2006. Este ano, foram destinados ao programa R$ 5 milhões.


Saiba mais!

Clique aqui e leia mais sobre a saída de Paulo Herkenhoff do Museu Nacional de Belas Artes

Clique aqui e leia mais sobre o Programa de Preservação de Acervo do BNDES

Clique aqui e leia sobre as inscrições para a edição 2006 do Salão do Mar


 

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