O perrengue de 2006




Geraldo Hasse


"Equacionar o perrengue" - ouvi essa expressão em Vitória da boca da terapeuta cearense Eliane Siqueira - é resolver satisfatoriamente as pendências que se acumulam no dia a dia. É quase o mesmo que "administrar o rame-rame", com a diferença de que um é áspero e outro resbaloso.

Lula, por exemplo, não conseguiu nem uma coisa nem outra. Tirou o perrengue do foco, mas o rame-rame continua, agora nas mãos de um novo marqueteiro, ex-sócio do Duda Mendonça, o pai do Lulinha Paz e Amor.

Governo não existe para resolver problemas, mas para administrá-los, isto é, passar de um ministério para outro, mediante ofícios, protocolos e memorandos, tudo de acordo com a legislação em vigor, revogadas as disposições em contrário. Disso se poderia concluir que um bom jeito de governar seria reduzir drasticamente o número de ministérios. Lula fez o contrário: em vez de enxugar a máquina, abriu-a para a entrada dos amigos do PT. Nada de novo no ar, diga-se, mas os resultados estão aí.

Nos primeiros dois anos e meio, a bola política do governo federal ficou com Zé Dirceu e deu no que deu; a bola econômica, aos cuidados do Palocci, está meio murcha, mas fizeram sobrar umas verbas para iniciar umas obras aqui e ali. Assim que o país está andando na sua velha marcha lenta. Resta saber se vai dar para passar de ano.

Taí o perrengue de 2006: deve Lula entregar a rapadura?

O povo que decida. Pra elite, Lula já era. E, no entanto, ele favoreceu os dois, povo e elite. Por isso e por outras coisas, ele se acha o bom das bocas. E quer continuar no poder. Tem aliados fortes, nem todos confiáveis. Você confiaria em Sarney, Calheiros, Temer, Quércia?

O que acha que Nelson Jobim está pretendendo? Não contente no Judiciário, quer um lugar no Executivo.

A campanha política, na realidade, já está correndo solta na mídia - nem sempre de forma explícita - desde o ano passado. Em seu último artigo, por exemplo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que é preciso fazer um projeto para os próximos vinte anos. Ele acha que os tucanos vão voltar ao governo. Com Serra? Com Alckmin? Com Aécio? Não parece haver dúvida de que além de candidatos os tucanos têm boas cartas nas mangas. Uma delas ainda não foi usada: Waldomiro Diniz. Depois de Marcos Valério, a bola da vez é Paulo Okamoto, mas também estão arrumando lugar no palco para Duda Mendonça.

Por trás de toda a movimentação no Congresso, estão os esforços para minar as forças dos adversários políticos. Nunca como agora ficou tão claro que a política é um jogo de xadrez em que mesmo os movimentos lentos pesam no desenvolvimento dos exércitos em campo.

Uma vez resolvido o impasse vigente - quem vai continuar chefiando o governo federal? -, fica presente o velho problema de administrar o perrengue. E esse pode ser expresso da seguinte forma: como repartir a rapadura com bom senso e moderação? À moda petista ou no estilo tucano?

Lembrete
"Se não expressar, encaroça"
Eliane Siqueira


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