Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Videogame é o Novo Cinema (Parte 02: Moviemakers**)



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


Dia desses, hordas de desocupados invadiram um pequeno servidor de World of Warcraft, causando congestionamento monstruoso de dados. Mas eles não queriam jogar, nem tocar o terror na partida alheia. Estavam lá só pra ver.

Eram usuários de outros servidores que tinham vindo testemunhar a abertura do portal de Ahn'Qiraj, clímax da campanha corrente do MMORPG - um acontecimento do tamanho do duelo entre Luke e o imperador Palpatine, da queda de Kong do alto do Empire State, da recuperação emocional de Scarlet O'Hara.

Separada por milhares de quilômetros, aquela gente formava um único público espectador. Olhando cada qual para sua telinha particular, eles viam a mesma história, ao mesmo tempo. Seus monitores de 17' se uniam no telão de uma sala de cinema que se estendia pelos cinco continentes habitados - para o desespero dos poucos jogadores nativos, que viram sua preciosa banda se esgotar em streaming de vídeo.

Jogos sempre mantiveram uma relação parental com histórias. Alguns nasceram delas, como o xadrez. Outros dão origem a elas: há partidas que se tornam épicos, e são narradas de pai para filho por gerações. Como aquela vez em que seu avô pegou o morto e bateu com uma canastra real, contra todas as expectativas.

Aí chegaram os videogames e transformaram essa relação em promiscuidade. São poucos os que não vestem a narrativa como uma armadura. Os game designers usam histórias para dar um sentido ao tiroteio, às peninhas mágicas, ao roubo de carros.

A novidade é que agora são os contadores de histórias que estão se servindo dos games. Assim como Ítalo Calvino construiu o Castelo dos Destinos Cruzados com um baralho de tarô, Burnie, Dan, Gus e Geoff fazem o seriado Red vs Blue (www.redvsblue.com) usando o /first person shooter/ Halo.

  
Foto: Divulgação
  
"Como uma partida multiplayer, as filmagens de um machinima acontecem online"
Red vs Blue existe desde 2003, e pelo que eu sei foi o primeiro /machinima/. Esse tipo de filme usa o próprio game como /setting/. O resultado pode parecer animação, mas é todo produzido em tempo real, como um longa-metragem do John Woo. O gênero já é popular o bastante para ter um Oscar (www.machinima.org) só pra ele.

Como uma partida multiplayer, as filmagens de um machinima acontecem online. As locações são os próprios servidores de jogo. Às vezes, um jogador fica responsável só por capturar as cenas em vídeo, para depois jogar de volta no computador, dublar e fazer a montagem final.

Usar um videogame para fazer um filme é mais ou menos como usar o Word para diagramar uma revista. É rápido e sujo, mas infinitamente mais simples do que configurar quadros-chave, ou dirigir estrelas caprichosas de Hollywood. E sem esses preocupações, o que volta a importar é o conteúdo.

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