Vitória (ES), edição de 09 de fevereiro de 2006    
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Clóvis Aquino e sua visão da pintura



Felicia Borges


  
Foto: Divulgação
  
"Lady With a Hat on", na Galleria Le Muse
Clóvis Aquino saiu de Vitória em 1990 como arquiteto, sem saber que a Itália guardava segredos que mudariam a sua vida. Ainda no aeroporto, um menino, diante dos rabiscos que aquele jovem fazia numa folha, disse à mãe que quando crescesse queria ser igual a ele. Sábia criança, que enxergou antes de Clovis um artista que ele viria a ser.

De férias no Estado desde o dia 18 de janeiro, o artista, acostumado a pintar as ruas de Roma, está produzindo um Diário da Praia da Costa, com pelo menos uma aquarela por dia do lugar. A ida para Roma foi para fazer um curso de paisagismo e estudar, mas Clóvis afirma que nunca pensou em ser pintor.

"Saí de Vitória como arquiteto e desenhista. Sempre trabalhei traços, no preto e branco, e aquarela eu usava para embelezar os meus projetos de arquitetura. Quando eu cheguei em Roma, acabei conhecendo a aquarela do século XIX e fiquei apaixonado pela cor e pela própria cor da Itália. Eu fiquei curioso de experimentar essa técnica, principalmente porque eu queria mudar de vida e não sabia como nem de que modo, mas o objetivo de ter feito uma viagem ao exterior era também o de refletir" fala.

A opção pela pintura foi uma forma que Clóvis encontrou para ficar na Itália, de um modo que pudesse absorver ao máximo a beleza do local. Mesmo com as dificuldades que encontrou com a profissão, ele acredita, hoje, que a paciência foi uma grande virtude.

  
Foto: Divulgação
  
Paisagem de Roma
Como toda história de pessoa que parte do zero, Clóvis começou vendendo as pinturas que fazia de Roma durante a semana no mercado de domingo. Mesmo no país onde a arte é tão forte, não foram poucas as dificuldades que o artista encontrou, que ele acredita até maiores do que as que se têm no Brasil.

"Eu descobri que em Roma a profissão de artista é muito difícil, principalmente porque não é regulamentada. Claro que é um país das artes, mas em termos práticos, do dia-a-dia, os artistas ainda têm que trabalhar muito para que exista uma regulamentação mais específica na profissão. Isso por um lado é bom, porque até pessoas como eu, que no início chegam lá sem ter todos os requisitos necessários, conseguem entrar no mundo das artes na Itália. Mas, por outro lado, te deixam também sem nenhuma tutela, qualquer pessoa pode se dizer artista e na verdade não é assim", diz Clóvis.

Autodidata na aquarela, foi o trabalho diário na pesquisa de aquarelista que deu a ele qualificação. Foram várias viagens de estudo não só na Itália, mas também na Inglaterra e na França. "O resultado é o meu trabalho. Eu participei de concursos, tive o reconhecimento, prêmios, devido a minha determinação. Eu tentei me inscrever na Academia de Belas Artes de Roma, mas eu vi que o sistema é muito arcaico, do meu ponto de vista, e não me adaptei dentro daquele ambiente".

Clóvis usa como temática de suas aquarelas rostos e paisagens. Quando pinta faces, um ponto comum entre elas é a espiral, que vem das pinturas de Rafael, artista do final do Renascimento. "A espiral é uma espiral das grotescas, que Rafael copiava dos afrescos romanos antigos, de antes de Cristo. Eram imagens de fantasias. Eu vivendo lá, vendo esse monte de espirais de tudo quanto é lado, e depois o barroco utiliza a forma curva espiralar bastante, um certo dia, da representação do meu olhar, saiu essa forma, como se o meu olhar tivesse capturando o meu entorno. Sempre que eu faço rostos eu coloco, para mim é fundamental ter", explica a recorrência da imagem.

Relação arte empresa

O grande número de artistas em Roma faz com que, segundo Clóvis, o ambiente da cidade se torne hostil para esses profissionais. "O galerista, praticamente, se coloca numa posição em que ele não precisa do artista, já que têm tantos. Ele nem busca o artista, é o artista que bate na porta dele. Isso fez com que eu optasse por trabalhar na cidade em parceria com empresas".

Se no Renascimento eram os papas e as famílias nobres da Europa que faziam um artista, hoje quem assumiu esse papel foi o mercado e a mídia e eles têm papel fundamental, na opinião de Clóvis, na validação da arte. "O que valida a arte é trabalho. Para mim como artista, ser consolidado por uma empresa, como a centenária fábrica de papel artístico Fabriano, foi muito importante. O que invalida a arte é a manipulação do mercado através dos críticos e da mídia. Eu acho que mesmo um trabalho abstrato meu não dá para comparar com o abstrato de uma pessoa que não segue a carreira, que não tenha o mesmo aprofundamento de um artista que segue todos os ciclos. Não que o artista não seja válido, mas ele está no nível dele, no momento dele e quem sabe um dia ele vai conseguir crescer um pouco mais, como eu também quero continuar crescendo", diz.

  
Foto: Divulgação
  
Sleeping in the Clouds
Estado

Apesar da distância do Estado, Clóvis gosta dos trabalhos que têm visto na cena artística capixaba, como Hilal Sami Hilal, Atílio Colnago, Lando, Kleber Galvêas, Ronaldo Barbosa, sua tia Lacunha, entre outros. "Uma observação que eu faço para o artista capixaba ou brasileiro é que não desanime, porque no final das contas, os meios e instrumentos para que um artista no Estado possa pensar em ampliar os horizontes, eu acho que aqui têm bastante. Eu resumo assim: a Itália, e outros países da Europa, é um terreno que já foi cultivado e hoje em dia talvez você possa colher os frutos mais rápido. O Brasil é um país onde você pode cultivar, e aí até os frutos podem vir melhores, porque a Europa já está pronta", finaliza.

Saiba mais!

Clique aqui para conhecer a página na internet de Clóvis Aquino.



 

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