A crise é moral




Geraldo Hasse


O vazio ético aberto pela crise moral do PT deixou na orfandade alguns milhões de eleitores a quem não satisfaz a hipótese de aderir ao lulismo puro e simples, mantendo o PT no poder por mais um período. Como foi dito na coluna anterior, nós brasileiros temos de decidir este ano se Lula entrega ou não a rapadura, mas a realidade é que não dá para condensar numa única pessoa os anseios de uma geração.

Se Lula virou o fio, Zé Dirceu comprometeu sua lenda e José Genoíno saiu da história como um pelego descartável. Aos 25 anos o petismo envelheceu, lembra o trabalhismo do tempo de Vargas. O que fazer diante do desgaste da última grande liderança brasileira? Ainda bem que temos tempo para decidir. Ponhamos Lula em vinha d'alho e aguardemos.

SERRA, O DISSIDENTE

Em compensação, não convencem os líderes do PSDB e do PMDB ao se apresentar como novas opções. Serra ou Alckymin? Garotinho ou Rigotto? Se tiver de ser um desses, que seja o Serra, pois fora a antipatia pessoal tem uma biografia muito boa. Pessoalmente, na verdade, Serra é o melhor candidato de 2006, mas antes de votar é preciso ver o que cada um representa. Serra era dissidente do núcleo que detinha o poder nos dois governos FHC. Era contra a visão econômica que manteve o Brasil prisioneiro do sistema financeiro internacional. Além disso, sempre pregou o desenvolvimento e, como ministro da Saúde, encarou a indústria farmacêutica, obrigando-a a criar os medicamentos genéricos. Terá coragem de afrontar os detentores do poder - a banca? Aguardemos também.

COISA DE LOUCO

A propósito, recomendo a leitura da última coluna de Elio Gaspari em que o jornalista compara o Comitê de Política Monetária do Banco Central ao Alto Comando do Exército na época da ditadura militar. Escreveu ele: "Como ocorria no Alto Comando da ditadura, alguns de seus membros extrapolam suas atribuições e ofendem os poderes da República. Usurpam prerrogativas e compartilham um governo de anarquia. Na ditadura, a anarquia era militar. No governo de Nosso Guia, é financeira. Nele, o melhor pedaço do andar de cima pode tomar o dinheiro da Viúva a 9% ao ano, atravessar a rua e emprestá-lo à mesma senhora a 17,25%."

Gaspari lembra que o Copom foi criado em 1996, num ato da burocracia interna do Banco Central, que se atribuiu a tarefa de estabelecer uma taxa para os juros, quando no máximo poderia fazer uma recomendação ao Executivo. Compara a taxa do Copom à lista de promoções enviada a cada três meses pelo Alto Comando ao presidente da República. "Ele a respeita (tem sido assim nos últimos 42 anos), mas não está obrigado a isso".

Vejam como o colunista desnuda o nosso chefe supremo: "O Alto Comando do BC comporta-se como se Lula não tivesse alternativa senão fazer o que seu mestre mandar. Disso resulta a desqualificação da Presidência".

No parágrafo seguinte, Gaspari vai mais fundo: "O governo do Nosso Guia tem duas taxas de juros: a Selic do BC para a freguesia da banca (17,25%) e a TJLP (9%) para a clientela do BNDES. A turma da Selic diz que a taxa da TJLP é coisa de maluco. A da TJLP diz o contrário. Nenhuma das duas turmas denuncia pública e sistematicamente que coisa de maluco é um governo com taxas tão divergentes".

Realmente, o problema não está no Banco Central, mas acima dele.

LEMBRETE

"...é manifestamente contra a lei da natureza, seja qual for a maneira por que a definamos, uma criança mandar num velho, um imbecil conduzir um sábio, ou um punhado de pessoas regurgitar superfluidades enquanto à multidão faminta falta o necessário".

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), no final do Discurso Sobre a Desigualdade, apresentado em 1754


ghasse@th.com.br