Vitória (ES), edição de 09 de fevereiro de 2006

Grandes projetos: Áreas de invasão
e constante miséria em Cariacica



Luciano Coelho
Foto capa: Ricardo Medeiros


Na Grande Vitória, Cariacica é mais uma cidade que sofreu com a instalação dos grandes projetos industriais capixabas. A Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), do grupo francês Arcelor, e a Vale do Rio Doce (CVRD) mudaram a realidade socioeconômica local. Surgiram áreas de invasão. Formaram-se bolsões de miséria, em bairros como Flechal I e II e Nova Rosa da Penha I e II. A população cresceu mais de 200 % nos últimos quarenta anos.

Esse crescimento, em média anual, é de 5%. O IBGE considera 3% um índice alto. De acordo com o instituto, Cariacica registrou seu maior crescimento demográfico na década de 60, quando a população aumentou, por ano, cerca de 9,86%. O número de habitantes saltou de 39,6 para mais de 100 mil. Atualmente, o município tem 355,4 mil habitantes. Já as regiões, que compreendem Flechal I e II e a Grande Nova Rosa da Penha, têm mais de 60 mil moradores.

Os novos projetos de expansão, em especial a 8ª usina da Vale, que anuncia geração de 11 mil empregos, não devem comprometer Cariacica como antes. Sandra Morethe, diretora de Planejamento Urbano do município, argumenta que as empresas falam que vão gerar um determinado número de empregos diretos, mas isso não acontece. Para a diretora, a mão-de-obra usada é muito diluída e indireta. "Vale e CST usam outras empresas para prestar o serviço e fazer o que elas precisam. E isso entra na contagem de empregos gerados", destacou Sandra.

A diretora ressaltou que o inchaço populacional de tempos atrás, deixou a situação muito ruim em Cariacica. Por isso, a pasta de planejamento trabalha, em parceria com o governo do estado, em um projeto de regularização fundiária, para não haver mais invasões e para atenuar os problemas causados pelas regiões invadidas, da época dos grandes projetos industriais.

O secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Cariacica, Pedro Rigo, acredita que o município foi o que mais padeceu com a criação da CST e da Vale. Segundo Rigo, quem veio para trabalhar nos empreendimentos não era qualificado. Por isso, muitos não conseguiram emprego e contribuíram para formação de bairros sem infra-estrutura, com investimento nulo.

Para a secretária de Assistência Social e Trabalho de Cariacica, Maria Helena Spinelli, além da carência estrutural, as regiões de Flechal e Nova Rosa da Penha apresentam os maiores índices de violência do município. Outra características desses bairros é a baixa renda da população.

Maria Helena adiantou que a Secretaria de Assistência Social e Trabalho realiza projetos sociais com crianças e adolescentes nessas regiões carentes. Ela, porém, lamentou que se houvesse uma política de manutenção e qualificação da mão-de-obra, na implantação dos projetos, a realidade seria outra. A secretária acredita que é imprescindível a união do poder público, das empresas e do terceiro setor para sanar os problemas gerados com a criação dos bolsões de pobreza.

A secretária não soube dizer em quanto tempo os problemas da miséria, causada pelos grandes projetos, será sanado.