Vitória (ES), edição de 09 de fevereiro de 2006
 
BNDES: R$ 17,5 bilhões para financiar
plantios de eucalipto até 2010


Ubervalter Coimbra

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou que sua carteira total de investimentos para o setor de produção de celulose chega a R$ 17,5 bilhões até 2010. A informação foi veiculada pelo banco ao divulgar que financiará projeto de expansão da Suzano Bahia Sul Celulose S.A., com R$ 2,4 bilhões dos R$ 3,5 bilhões que serão investidos.

O banco afirma que "a expansão da Suzano Bahia Sul, irá beneficiar diretamente o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo". Diferentemente do que pensa a direção do Banco, lideranças dos trabalhadores no Espírito Santo condenaram um empréstimo no valor de R$ R$ R$ R$ 297.209.000,00 feito à Aracruz Celulose, empresa do ramo da Suzano Bahia Sul.

Assinalaram que os recursos emprestados em condições extremamente favoráveis à Aracruz Celulose dariam para criar 90.806 postos de trabalho no campo, mas que iriam ser criados apenas 3.300 empregos (30 hectares com eucalipto ocupam apenas um trabalhador. Na agricultura é criado em média um emprego por hectare).

No seu site, o BNDES informou que a Suzano Bahia Sul Celulose S.A. na última sexta-feira (3) apresentou "a pedra fundamental do projeto de expansão da capacidade produtiva em sua unidade industrial de Mucuri, na Bahia. O projeto prevê investimentos de R$ 3,5 bilhões em três anos, dos quais R$ 2,4 bilhões serão financiados pelo BNDES". Os empréstimos às grandes empresas são a juros subsidiados, chegando a apenas 2% ao ano em alguns casos.

Toda a produção será para exportação, "o que deve gerar cerca de US$ 500 milhões anuais em novas divisas para o país". Anuncia que participaram da cerimônia de lançamento da pedra fundamental os governadores da Bahia, Paulo Souto, e do Espírito Santo, Paulo Hartung.

Na ocasião, o vice-presidente do BNDES, Demian Fiocca, disse que se tratava "de um momento de grande importância para o país. "O encontro de hoje é a consumação de uma reunião que tivemos em outubro passado, em que o presidente Lula recebeu no Palácio do Planalto os presidentes do BNDES, Guido Mantega, e do Grupo Suzano, David Feffer, em companhia ainda de Daniel Feffer, vice-presidente do grupo, e do diretor do BNDES Carlos Kawal".

Fiocca disse acreditar que se trata de uma "magnífica iniciativa da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose" e é "evidência de que o Brasil entrou em um ciclo de crescimento sustentado".

Diz que "o setor de papel e celulose é de fundamental importância para o Brasil, sendo responsável por 108 mil empregos diretos. No ano passado, a produção brasileira de celulose atingiu 10 milhões de toneladas e a de papel 8,6 milhões.

O BNDES avalia que nos próximos três anos cerca de R$ 10 bilhões serão investidos em novos empreendimentos do setor, com efeitos positivos para toda a economia do país. A carteira total de investimentos do BNDES para o setor chega a R$ 17,5 bilhões até 2010".

Os produtores rurais também serão cooptados para plantar eucalipto. Diz o BNDES que "a expansão da produção também prevê uma grande parceria com pequenos proprietários rurais, que poderão se transformar em fornecedores de madeira para a unidade de Mucuri. Trata-se de uma iniciativa que trará benefícios para a população rural, contribuindo para a melhoria de sua renda e para a fixação do homem no campo.

Além dessa parceria com os pequenos proprietários e dos empregos que serão gerados pela unidade industrial, os benefícios para a população vizinha ao projeto virão ainda em investimentos sociais que serão realizados pela empresa em sua área de influência, totalizando R$ 24 milhões até 2008. Para esses investimentos sociais, o BNDES cobra juros zero, apenas repassando o custo da TJLP".
   
O protesto dos capixabas

As lideranças dos trabalhadores no Espírito Santo reagiram ao anúncio de que o governo federal emprestou recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) a juros de até 2% ao ano à Aracruz Celulose. Lembraram que os R$ 297.209.000,00 emprestados à empresa dariam para criar 90.806 postos de trabalho, mas serão gerados apenas 3.300, pois serão aplicados na plantação de eucalipto.

Foi observado na ocasião que na produção de verduras, frutas e legumes são gerados entre dois e três postos de trabalho, em média, por hectare, o que aumentaria o número de empregos em pelo menos duas vezes. Sem considerar que os plantios de eucalipto nas pequenas propriedades rendem 25 menos do que o cultivo de frutas, legumes e verduras.

Também foi lembrado que dinheiro cedido à Aracruz Celulose seria bastante para custear o assentamento de sete mil famílias de trabalhadores rurais em suas próprias terras. Nos assentamentos, os trabalhadores produzem alimentos que geram renda de quatro salários mínimos mensais em média.

Os recursos emprestados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) à Aracruz Celulose serão utilizados ainda no aumento da produção de uma de suas fábricas, a do Rio Grande do Sul.

As lideranças dos trabalhadores lembraram ainda que o governo federal desconsiderou os impactos ambientais que as grandes plantações de eucalipto causam: destroem a água (a planta exótica é voraz consumidora durante seu crescimento e, mal acaba o seu desenvolvimento, aos sete anos, é cortada para produção de celulose); e que nos plantios são usadas elevadas quantidades de herbicidas e formicidas, entre outros danos ambientais.

Tampouco considerou os crimes sociais praticados pela Aracruz Celulose, que tomou terras dos índios, dos quilombolas e dos pequenos proprietários, inclusive com uso de força. A empresa usa sua própria milícia, com a retaguarda de policiais civis e militares, contra os quilombolas. Contra os índios, arquitetou o emprego de forças policiais federais.

   


Leia mais:
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    (reportagem publicada em 06/03/2006)


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