Vitória (ES), edição de fim de semana    
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Impasse ou resistência?



Cristina Moura


  
Foto: Divulgação
  
Para Washington, o ES é o Estado mais racista do País
Parece difícil a conciliação das lideranças do movimento negro com o poder constituído no Estado, especialmente em relação ao Museu do Negro, no Centro de Vitória. De um lado, as lideranças do movimento, que se colocam receosas ao discurso institucional. Do outro, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), que diz estar pensando numa solução.

O impasse ainda se mostra distante de ser resolvido. Mas, o problema maior talvez seja o da identidade ou de que o Estado do Espírito Santo não vive a sua negritude plenamente. "Talvez seja o Estado mais racista do país, por mais incrível que pareça", afirmou o diretor do Museu do Negro, Wellington Anjos.

A terminologia "museu" também entra em conflito com a proposta do que seria realmente um museu. O próprio Wellington admite que é mais um centro de referência da causa negra. A coordenadora de Memória, Patrimônio Cultural e Natural, da Secult, Alcione Dias, avaliou a situação como difícil, de resolução ainda demorada ou sem um período determinado.

O próprio movimento parece tomado por dissidências, o que dificulta ainda mais o processo. O prédio foi tomado pelos militantes durante a criação de um decreto, em 1993, que instituiu o Museu do Negro. O problema é que o decreto não designou espaço físico, verba anual e corpo de funcionários. "Aquela situação se estabeleceu ali, mais por resistência dos militantes. Não tiro a importância do movimento", afirmou Alcione.

  
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Espaço físico deteriorado

A meta da Secult, num primeiro plano, é saber o que fazer com o prédio, que na verdade pertence à Secretaria de Segurança Pública e tampouco é tombado pelo Patrimônio Histórico. O Museu do Negro não se constitui um museu de fato, com um quadro composto por, pelo menos, um museólogo - profissional presente em praticamente todos os museus constituídos, no Brasil e no mundo.

Na Rua da República, onde fica o prédio, vê-se logo um problema com a conservação. Nas escadas, problemas com o revestimento. Nas janelas, madeiras estragadas. No piso de madeira, mais problemas e prováveis riscos de rompimento dos tacos. Algumas esculturas estão por lá, no tapete, no chão, sem visibilidade, luz adequada e dados visíveis pertencentes aos autores.

No salão principal, algumas cadeiras dispostas para as aulas e outros eventos. Segundo o diretor do local, há um fluxo de quase cem pessoas diárias no período letivo. "Resistimos há treze anos e estamos cansados de pedir. Não temos mais nem argumento. Estamos resistindo, somos o espelho do descaso, da falta de vontade política. Sempre dizem 'esperem um pouco...' Para o negro, às vezes isso sai como 'nunca' ou 'quase nunca.'", afirmou Washington.

Ampliar a negritude

A Secult avalia como essencial a amplitude do museu, que deverá virar um centro de referência para todo o Estado. Segundo Alcione, o movimento no Museu do Negro concentra mais as lideranças de Vitória. "Somos uma secretaria estadual. Não podemos nos direcionar somente para a capital. E onde ficam os outros movimentos, em outros municípios?", questionou.

  
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A Coordenação de Memória instituiu o Fórum permanente da Cultura Afro. O objetivo é desenvolver alguns trabalhos preliminares até a formação do centro de referência. Um mapeamento do movimento negro também está sendo traçado, junto com comissões formadas por antropólogos, historiadores e outros profissionais. Questionários também estão sendo distribuídos em todas as regiões, segundo Alcione.

Washington Anjos, no entanto, contradiz a Secult. Diz que o Museu do Negro já tem todo o mapeamento, que mais de 50 entidades são ativas no Estado, incluindo o movimento quilombola. "Essa é uma questão bem maior, não somente de ficar num ou noutro local. O problema é o preconceito. O racismo é coisa de todos nós. Para ser cidadão do Brasil, temos que viver a nossa negritude", observou.

Atualmente, o Museu do Negro realiza cursos, oficinas, palestras e outros eventos, todos voltados para a conscientização sobre a cidadania e o resgate da auto-estima do povo negro. "Temos enxergar o racismo com amplitude institucional, não somente de pessoa para pessoa", disse Washington.


 

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