Semana passada só se falava no "absurdo" que eram as violentas reações mulçumanas às charges publicadas pelos jornais europeus. De uma hora pra outra a silenciosa Dinamarca de trasnsgressores essenciais como Dreyer, Dinensen, Andersen e Lars von Trier tinha se tornado o mártir da vez. O "absurdo" maior, para alguns, não era terem colocado a cabeça do primeiro-ministro dinamarquês a prêmio. Era o tal concurso que o governo iraniano estava promovendo, aberto a charges que satirizassem o Holocausto.
Sinceramente, eu acho que essa foi talvez a única sugestão dotada de algum lampejo de sanidade, em meio a tanta histeria coletiva: era uma chance genial de se devolver uma "afronta" na mesma moeda, provocando os tabus alheios. Isso vale muito mais do que qualquer violência física: a ironia é uma bela arma pra se enfrentar a hipocrisia. E o que mais se viu durante esses últimos quinze dias na Europa e no Oriente Médio foi um festival de hipocrisia capaz de rivalizar com praticamente todos os escândalos políticos brasileiros desses últimos quarenta anos.
Tudo bem que quem está por trás da proposta é a mais perigosa das raposas. O "novo" governo iraniano já deu provas da capacidade de ser pior que Saddam, Khadafi, os Talibãs, Sharon, Bush e Tony Blair juntos. Mas a proposta não deixa de abrir espaço para um saudável debate sobre o que realmente vem a ser a tão defendida "liberdade de expressão", não só na forma de liberdade de imprensa, mas também como direito individual inalienável.
O Holocausto é talvez o grande calcanhar de Aquiles da cultura ocidental contemporânea. Numa época em que quase nada é tabu, a lembrança de um dos mais monstruosos (e documentados, o que o torna mais monstruoso ainda) massacres da história da humanidade é sempre evocada em nome da paz mundial. Ao mostrar os extremos de crueldade em larga escala dos quais o ser humano é capaz, o extermínio de judeus e outras "minorias" durante a Segunda Guerra trouxe-nos incontáveis lições. A arte vez por outra se inspirou nesse episódio para produzir algumas de suas obras mais pungentes (o "War Requiem" de Benjamim Britten, uma lista infindável de belíssimos filmes e a emocionante literatura de sobreviventes dos campos de concentração, como Primo Levi são os primeiros exemplos que me vêm à mente), além de caça-níqueis de todo tipo (inclusive aquele filme oscarizado do Spielberg e, indiretamente, o filhote dele atualmente em cartaz nos cinemas).
A questão é que hoje o Holocausto é usado, principalmente por Israel, como uma espécie de escudo pra justificar toda e qualquer atitude, não só de defesa, mas também de ataque (incluindo muitas atitudes tão abusivas quanto as dos adversários árabes), esvaziando assim, o significado de algo que deveria servir como uma grande lição para a humanidade. Em lugar de se reaproveitar a triste herança da tragédia para se demonstrar as formas nas quais a esperança e a união de forças podem superar a dor (e a criação do Estado de Israel no início trazia essa marca), faz-se uso dessa situação para alimentar o rancor entre as partes em constante conflito. Uma bola de neve daquelas.
Daí que eu retorno à contribuição que, involuntariamente, o "diabólico" governo iraniano trouxe ao debate do livre-pensar/livre-expressar: só mesmo permitindo à ironia questionar as contradições do discurso social é que podemos resgatar o significado simbólico da dor e de suas cicatrizes. A partir do momento em que os dois lados são alfinetados, continua e intensamente, mas de uma forma saudável, ou seja, abrindo espaço para discussões diversas, as diferenças podem ser confrontadas e resolvidas, ainda que de forma bastante lenta. E esse aprendizado passa pela nossa capacidade de ouvir o "diferente" e aprender com ele, ainda que nós sejamos os "mocinhos" e eles, os "bandidos".
Esta semana eu revi um exemplo que se aproxima do concurso iraniano: nos anos 60, frente aos embargos que os EUA promoviam à Cuba recém-comunista, o cineasta cubano Santiago Alvarez fez um dos mais emocionantes panfletos da época (tanto que deixou de ser panfleto com o passar do tempo, e hoje é reconhecido como uma obra instigante): trata-se do curta-metragem "Now!", colagem de imagens de negros norte-americanos sendo torturados pela lei e ordem, e de protestos pela igualdade racial, ao som da canção de protesto (então banida) de Lena Horne. Corria o ano de 1965 e o racismo era a grande pedra no sapato norte-americano de então. Alvarez expôs de forma bastante criativa as contradições da dita "maior democracia ocidental". Coisa que os artistas de hoje deveriam fazer.
Aí você me pergunta: "Essa não é uma coluna de literatura? Cadê a literatura?" Pois é. Falei de política, falei de cinema, expus colocações difíceis de engolir, enquanto que a literatura responde a tantas questões com um incômodo silêncio. Hoje os grandes escritores mundiais são cada vez mais chapa-branca, calando-se frente a questões básicas. Ok, não daria pra se ter uma resposta artística imediata e ao mesmo tempo relevante para o que vivemos agora, mas isso infelizmente não serve como esperança de que o episódio possa produzir uma forte reflexão daqui por diante, a ser traduzida nos próximos anos em livros realmente relevantes. Provavelmente, os artistas de hoje vão se calar, como sempre fazem. Enquanto que Pasolini, Wilde, Primo Levi, Genet, Sade, Maiakovski e outros grandes mestres da arte de "cutucar feridas abertas" são freqüentemente citados como referência pelos autores badalados, os tais "contemporâneos" continuam em cima do muro (excetuando-se os autores oriundos das "minorias", que se respaldam justamente por aliarem sua crítica social à pesquisa estética). Ou seja, os contemporâneos fazem questão de se perderem no tempo. Uma lástima.
Não estou dizendo que a arte deva ser veículo para panfletos. Só acho que abrir a boca de vez em quando faz bem, principalmente se a voz que se pronuncia é a dos que são lidos por milhares ou milhões. Acho que é para isso que, no fim das contas, serve a liberdade de expressão. Senão, a gente corre o risco de, no caso de se iniciar uma Terceira Guerra, o coitado do primeiro-ministro dinamarquês (cujo assassinato desencadearia toda a minha fantasiosa catástrofe futurista) acabar virando nome de alguma banda pop de inspiração retrô daqui a cinqüenta anos. Igualzinho aconteceu ao arquiduque Francisco Ferdinando.
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