Vitória (ES), edição de 15 de fevereiro de 2006    
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Marcas da permanência
Em "Exílios", as histórias de vida são escritas não no papel, mas nos corpos



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


"Exílios" (lançado este mês em DVD) começa numa superfície indefinível, coberta por uma sombra estranha que se move vagarosamente. Quando a câmera sai desse plano fechadíssimo, nos vemos mergulhados nas costas de Zano (Romain Duris), um pouco do brilho de seu suor, algumas pintas, a musculatura desenhando formas com aquela sombra inicial. A câmera segue se afastando, e percebemos Zano totalmente nu, olhando Paris do alto da janela de um apartamento. Corte para Naïma (Lubna Azabal), igualmente nua, deitada na cama comendo uma espécie de creme que lambuza sua boca e seu busto. Esses dois corpos, mais que meras dimensões físicas dos personagens desta trama, serão, ao longo do filme, o próprio local onde a trama se realiza. Porque há aqueles que fazem filmes para o coração, outros para a alma, alguns até mesmo para a mente. Com Tony Gatlif, é diferente. "Exílios" é um filme sobre e para a pele (dos protagonistas tanto quanto dos espectadores).

Zano e Naïma são mais dois a engrossar as estatísticas de imigrantes das ex-colônias a tentar a vida na França-maravilha. Quando o rapaz decide-se, já nessa primeira cena, a retornar à Argélia natal, o faz sem muita convicção política ou memorialista. Sua companheira é convencida a ir junto, suas raízes também estão por lá, mas não há nessa decisão a firmeza de quem precisa se reencontrar com o passado ou mesmo fazer as pazes com suas origens. Logo nos primeiros momentos dessa viagem à pé de um continente à outro, Gatlif faz aparecer na tela um ninho de passarinhos, com alguns filhotes ainda a sair de seus ovos. É uma espécie de desafio imposto pelo diretor àqueles que assistem seu filme: pode parecer que esta será uma viagem de retorno ao ninho, mas são outros seus objetivos. É difícil fugir do clichê de uma travessia que tem por fim principal a auto-descoberta - e mais difícil ainda é não notar que o grande problema do clichê é que a vida faz sempre questão de confirmá-lo. Os dois jovens franco-argelinos fazem o caminho oposto à milhares de conterrâneos seus. Se tivessem ficado na França, talvez aumentassem uma outra estatística de imigrantes, aquela que dá conta dessa população marginalizada que se revoltou contra a xenofobia oficial e incendiou metade do país em sinal de protesto. Zano e Naïma não entram nesse coro, porque ainda precisam saber qual música cantar. E é atrás dela, desta "música", mistura de letra (uma história de vida, um passado, uma família) e melodia (o modo de fazer isso tudo se harmonizar entre si), que o casal parte.

  
Foto: Divulgação
  
Deitados na grama orvalhada de um campo do sul da Espanha, o casal se tateia, busca informações um do outro - sua relação não é necessariamente a de amantes, parecem se conhecer a pouco tempo, a decisão de viajarem juntos soa quase como o sacramento de uma união ainda pouco firme. Zano busca a história de Naïma através das cicatrizes em sua pele, e ela responde na mesma medida. Cada marca contém uma história, e é sua permanência que constrói o ser humano por trás dessas cicatrizes. A pele em "Exílios" é tratada não como a barreira que separa o homem do contato direto com o mundo, mas sim como a própria ligação entre esses dois universos. Daí os corpos de Zano e Naïma serem tomados como um calhamaço de páginas, metade escritas, metade em branco. As marcas que carregam até aquele momento são apenas o começo desta narrativa epidérmica. Quando decidem partir para a Argélia sabem, mesmo que não completamente, que muitas outras cicatrizes virão.

E por isso se jogam de cabeça. Romain Duris e Lubna Azabal, se entregam suas almas aos personagens, ao mesmo tempo abandonam seus corpos aos desejos da câmera. O trânsito de Zano e Naïma entre um país e outro é acompanhado pelo trânsito permanente de seus corpos pela tela, seja na dança amalucada num campo de futebol deserto, seja no sexo quase primitivo no meio de uma plantação de maçãs, seja ainda pela visão de outros corpos em trânsito, como os espanhóis a dançar flamenco. A passagem desse trânsito (simples movimentação linear) para o transe (movimento transcendente) se dá justamente quando o casal se permite novas cicatrizes, se permite marcar pelas transformações que esta viagem catártica propõe. A cena, de uma beleza estarrecedora, mostra Naïma sentada num trem lotado, pela primeira vez na vida em solo argelino. Seu olhar carrega o mundo de implicações que aquele retorno sugere e que até então não haviam passado por sua cabeça. Cansada do trajeto e temendo o inevitável encontro com as razões mais profundas de seu exílio, ela segue tentando imunizar-se àquele ambiente, quando uma mulher logo acima de onde está, bebê no colo e pano cobrindo a cabeça, deixa cair por debaixo do véu uma gota de suor. A gota faz o caminho da testa da mulher, e em queda livre, pousa na pele de Naïma. O suor não deixa marcas - e no entanto a moça sabe que está ali forjada a primeira cicatriz de sua nova vida.

É este seu passaporte para o grande momento de "Exílios" (e, sem exageros, um dos grandes momentos do cinema recente), um plano-seqüência de mais de 10 minutos em que Naïma e Zano participam de um ritual que mistura cantos muçulmanos à batidas das religiões africanas e que leva os dois personagens a um transe de proporções épicas. Os dois jovens que iniciaram a viagem neste momento se desfazem em nome de outros, a quem as influências da jornada são por demais profundas para serem ignoradas. Sim, é mais um filme sobre a transformação interior a partir das experiências com o mundo exterior. Seu grande valor é tornar tão incrivelmente verdadeiro esse trajeto. Um filme sobre e para a pele, e não um fotograma sequer em que ela não esteja totalmente arrepiada.

Saiba mais!

"Exílios", de Tony Gatlif (2004), 103 min. Widescreen anamórfico, áudio original Francês, legendas Português

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