O próximo medo





Tavares Dias


Fulana tem hora de vôo que não acaba mais, quando o assunto é a arte de relacionar-se. Tanto pelo que estudou quanto pelo que tem vivenciado. Ao que tudo indica, já deve ter levado da vida um bocado de empurrões. É mulher forte, trabalhadeira, prole criada, uns três casamentos de permeio, sem contar os ameaços.

E, naturalmente, Fulana ressente-se de tanto empurrão. Por isso anda ressabiada, caseira, muito livro e dvd. "Sem disposição de sair para caçar", explica.

Dia desses aí, reencontrou Fulano, a quem não via fazia tempo e com quem jamais conversara por mais de meia hora de uma vez. E voltaram a se ver, outra e outra e outra vez, para conversar e para, no final, ficarem sabendo como são parecidas as inseguranças, como são similares os medos.

E dessas conversas nasceram outras conversas, e outras linguagens, e outras expressões e vivências. Feito um freio de mão puxado até o talo que se vai soltando dente por dente,

Pouco a pouco, algumas travas dão mostras de querer ceder; outras, não, parecem sedimentadas, quase que uma função, um órgão do corpo ou da mente.

Então, Fulana e Fulano percebem que, para duas pessoas que já tomaram tanta porrada da vida, estão soltando o freio de mão rápido demais. Logo, como pessoas maduras, intelectuais e vividas, conversam sobre o medo, a rapidez, os novos costumes, o hábito de ficar, a falta de coragem (que parece nortear esta era) de estabelecer contato emocional. E combinam de dar uma desacelerada.

É mesmo um tempo muito curioso, este. A gente já se acostumou com o medo da Aids, do câncer, da polícia, dos bandidinhos da esquina, dos bandidões do sistema financeiro, nacional e internacional, dos tentáculos do crime organizado manietando o mundo inteiro, dos seqüestros relâmpagos, do desemprego, do trânsito enlouquecido das nossas cidades, do abandono de tantos deserdados do capitalismo.

Agora, conforme está acontecendo com Fulana e Fulano, já são milhões, mundo afora, aqueles que sofrem do medo de se dar e de não suportar uma possível futura rejeição.

Qual será nosso próximo medo, cara leitora e caro leitor, se é que ainda precisamos de mais algum?

"A solução está na própria palavra 'medo", ainda tem coragem de me dizer um amigo, místico e neurolíngüista de botequim, a quem relato a situação de Fulana e Fulano sem mencionar os nomes reais. Claro, invertendo-se as sílabas da palavra "medo", encontra-se "dome".

Ah, meu caro amigo, se fosse tão fácil assim...