Para o ocidente, o cinema japonês sempre foi um cinema de extremos. Um cinema que podia caber perfeitamente nas salas de arte e nas sessões da madrugada, mas nunca entre esses dois espaços.
De um lado, Kurosawa e Mizogushi; do outro, Gamera e Godzilla. A dificuldade em conciliá-los em nosso imaginário tornava quase impossível enxergar o país que havia por trás deles.
Buscamos ali uma /nouvelle vague/, mas também o rotulamos de /trash/, experimentando aproximações importadas, que nunca poderiam se referir a uma filmografia autenticamente asiática. Somente reunindo o lirismo da câmera /bashô/ e os não menos magníficos monstros nucleares é que o Japão pode se exprimir plenamente.
Por ironia, foi se submetendo aos limites de um cinema de gênero/ /que essas contradições nacionais encontraram lugar em multiplexes e locadoras deste lado do mundo. Assim como a Itália se tornou popular com o seu faroeste /spaghetti/, o Japão tem se espalhado velozmente através do /terror/.
Não poderia haver categoria mais apropriada, que reunisse em um mesmo enredo a espiritualidade solene e a tecnofilia pop tão particulares daquele país. Nosso estranhamento com esse sobrenatural ecoa um estranhamento mais profundo, com a cultura do outro - uma cultura que repentinamente se tornou universal e nos espreita por todos os lados,
em computadores, celulares, câmeras de vídeo.
Assim, o /remake/ do primeiro /Ringu/ não apenas desencadeou os seguintes - /The Grudge/, /Dark Water/, /Ring 2/ -, como deu o tom para a toda-poderosa indústria norte-americana. Depois dele, o terror ganhou um relevo que não se via desde a onda dos /teen slashers/, e um cinema oriental /verdadeiramente/ /extremo/ se fez visível.
O filme de gângster, o /gore/, o horror e o suspense sobrenatural: um cinema que não comove nem impressiona, mas /atinge/.
[Para ler as colunas antigas, clique no link "Arquivo" e escolha a semana desejada]
E-mails para o colunista: gabriel.menotti@gmail.com
|