Conselho ao Rei




Geraldo Hasse


Li n'O Globo que Roberto Carlos pensa escrever um livro contando episódios de sua vida. Nada mais natural: o Rei passou dos 60 e cogita colocar no ar sua autobiografia. Imagina contar a um gravador mil e uma estórias que viveu, mas sempre deixa para o dia seguinte o começo da tarefa. E assim vai adiando a iniciativa. Daqui a pouco dobra a curva dos 70 e, vai ver, não gravou nada nem escreveu coisa alguma. Pena. Ele reconhece que escrever é muito difícil. Também acho, mas é preciso dar o primeiro passo.

Como tenho mais de 40 anos de atividade como escriba, ouso dar uma dica ao Rei: comece fazendo um roteirinho simples. Anote numa folha de papel os principais episódios de sua vida. Não é preciso ir além dos principais, os decisivos, os mais marcantes.

Para facilitar as coisas, talvez seja mais prático começar dividindo sua vida em setênios, como fazem os antroposofistas. Existe até um processo terapêutico baseado na autobiografia. O método foi formulado pelo filósofo alemão Rudolf Steiner (1865-1921), compilador da antroposofia. No Brasil, quem mais o desenvolveu foi a médica Gudrun Burkhard, nascida em São Paulo em 1929 e que desde o final do século XX foi morar em Florianópolis.

Trata-se de um saber antigo, do tempo da primeira civilização egípcia: a cada sete anos a vida humana sofre mudanças fundamentais, queira ou não a pessoa envolvida, pois a natureza é uma só.

Só para exemplificar: aos sete anos, caem os dentes de leite e nascem os de esmalte. Aos 14, meninos e meninas amadurecem sexualmente. Pode variar, mas é mais ou menos nessa faixa etária que acontecem as primeiras relações íntimas. Aos 21, rapazes e moças assumem a maioridade civil. O início da vida profissional vem logo depois, embora isso também varie de pessoa para pessoa. E assim por diante, aos 28, 35, 42, 49, 56, 63, 70 etc.

É claro que no decorrer dos setênios existem datas marcantes que não coincidem com os anos-chave, como o dia da primeira comunhão, o primeiro namoro, a descoberta do amor, a primeira desilusão amorosa, o primeiro porre, a formatura, o dia do (s) casamento (s), a noite de estréia, aquele acidente trágico, o contato chocante com a morte, o nascimento do (s) filho (s), o fim da paixão, a depressão, as viagens - incluindo as propiciadas pelas drogas; a relação com a divindade, os encontros com os amigos e tantos outros eventos.

Entre tais episódios mais ou menos snigficativos, talvez caiba anotar as brigas profissionais, os conflitos existenciais, os processos judiciais, as doenças, as cirurgias, os tratamentos médicos, os processos terapêuticos, a perda dos cabelos, o surgimento das rugas, a cura de uma pereba e "tudo aquilo que vale a pena quando a alma não é pequena", como disse o grande poeta português Camões, aliás caolho e infeliz no amor.

Um roteiro biográfico básico, mais ou menos minucioso, não é uma camisa-de-força da qual não se possa escapar. É apenas um guia para começar a desovar as histórias que compõem a vida do narrador. A idéia de falar ao gravador é muito boa, especialmente porque se trata de uma ferramenta familiar a um compositor popular, mas há aí o risco de cair no monólogo narcisista. Se o esforço biográfico é sincero e não apenas um exercício de vaidade inspirado pelo desejo de atochar ao público um rosário de mentirinhas marqueteiras, é recomendável que o depoimento seja assistido, se não orientado, por pelo menos um profissional da escrita, livre do espírito bajulatório que cerca os ídolos populares. O mínimo que se espera de um astro da música é que comece sua biografia contando-a a alguém, olho no olho, e não a uma máquina inerte, incapaz de formular perguntas e de se emocionar.

Transcrita para o papel, cada fita gravada vai dar forma ao rascunho do livro, que merecerá adendos e correções, a critério do autor e de seu, digamos, writer ou editor. Esse mesmo alguém poderá providenciar uma pesquisa em arquivos de jornais, para levantar material sobre a vida do artista. Pois é impossível imaginar que a biografia de personagem tão importante na história da MPB não leve em consideração o que disseram sobre ele ao longo do tempo os meios de comunicação. Além disso, caberia inserir depoimentos de pessoas relevantes em sua trajetória existencial. Tudo isso poderá (ou não?!) resultar num livro à altura do seu talento - isso para o caso de RC pensar apenas numa biografia honesta e digna.

Na realidade, levando em consideração a extraordinária trajetória do artista cachoeirense, é possível atirar muito mais alto e projetar uma "Vida e Obra", incluindo (em CD) a discografia, a filmografia e tudo de mais significativo que sobre ele foi ao ar no rádio e na televisão. Um projeto multimídia, enfim, que se impõe e justifica naturalmente. Taí um trabalho para um bom par de anos.

Por mais que alguns críticos desdenhem da qualidade de sua vasta obra musical, Roberto Carlos é uma figura incomum no panorama cultural nacional, onde brilha há quase meio século. Começou fazendo a clássica viagem-mudança do interior para a capital - acontece com a maioria dos jovens -, mas foi muito além das expectativas mais corriqueiras, tornando-se um extraordinário campeão de vendas, admirado e invejado por sucessivas gerações.

Entre inúmeras músicas banais, ele compôs grandes canções de amor e até "de protesto", estabelecendo por long, long time a hegemonia de uma estética brega-chique-romântica nos auditórios de tevê, nos programas de rádio e nas seleções musicais da motelaria nacional. Sua resistência nas paradas de sucessos é tão grande que inspira uma pergunta: qual o segredo de sua longevidade artística? Taí uma grande questão. Espera-se que a resposta conste da biografia do Rei.

AVISO AOS NAVEGANTES

O redator da coluna está em férias.


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