Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Literatura para neuróticos compulsivos



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


pensar o linking como corte seco não adianta. texto não é cinema. foram décadas até acostumar nossos olhos às montagens audiovisuais - e olha que tínhamos um bocado de coisas pra nos distrair enquanto a gestalt se resolvia: trilha sonora, efeitos especiais, cores e formas, estrelas de hollywood!

quando a gente só tem um monte de palavras num monitor, como é que se faz? ainda mais quando elas ficam lá, aguardando um clique; o texto à espera da elipse. o leitor ativo é meio pamonha.

se é pra ficar zapeando pelo hipertexto, tanto faz dentro ou fora da suposta obra. é a esquizofrenia recorrente da rede. quando o cérebro toma o mundo, o mundo invade o cérebro. tudo pode ser literatura, tudo é arte, tudo está ligado - mas nada é coeso. eu tenho três bananas e como duas maçãs: quantas frutas me sobram? potencialmente todas!

o hipertexto não tem coesão intrínseca, e portanto sofre de disritmia. o que é um grande problema, pois acaba com todas as suas possibilidades de arrebatamento, que é o principal poder da boa literatura. a capacidade de re-realização, teletransporte.

arrebatamento é um transe menor gerado pela sintonização do leitor com a obra, um fenômeno rítmico (a poesia pode prescindir de tudo, menos de). mais ou menos como andar de bicicleta: as primeiras pedaladas pedem algum esforço, as próximas pedem controle. inércia: obra e leitor dançam tango rumo ao precipício.

pense, por exemplo, se o seu browser não traduzisse html, e todas as palavras em negrito saíssem ‹b›assim‹/b›. pois é mais ou menos isso que eu sinto quando encontro um "link literário". como se ele fosse uma abstração mal-interpretada, um erro de leitura de
um pré-sistema axiomático

porque, sim, nós queremos ler como quem vira páginas - mesmo porque virar páginas é um efeito colateral imperceptível da leitura! o hipertexto, por outro lado, é difícil de esquecer: você está sentado na frente do micro, se deixando levar por palavrinhas azuis

texto não é videogame. as palavras pedem muito mais concentração, fica difícil se entregar a simulações internas quando o próprio sistema de interface fica por sua conta. virar a página ainda vale, cabe na gestalt de todo mundo - mas cortes secos sincopados? talvez com um copo d'água, quem sabe dê pra engolir melhor?

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