Vitória (ES), edição de 21 de fevereiro de 2006    
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Cartas marcadas
"Syriana" trata a guerra do petróleo como um quebra-cabeça onde todos já sabem o lugar de cada peça



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
Há um fato curioso na recepção de "Syriana - A Indústria do Petróleo" (em cartaz no Estado), notável tanto na crítica quanto nos comentários do público após suas exibições. Parece haver um estranho consenso de que o filme de Stephen Gaghan é "confuso demais", muita informação rola pela tela, e o trabalho maior do espectador acaba sendo tentar não se perder no emaranhado de tramas e subtramas que, como diz o subtítulo do nome em português, destrincham as relações sub-reptícias da tal indústria do ouro negro. Diferente dos thrillers políticos gerados no seio de uma outra grande indústria, a hollywoodiana, "Syriana" equivale suas intenções emotivas (a câmera tremendo, a trilha sonora modulando cada clima, conduzindo o suspense por entre explosões e conspirações) às suas intenções ideológicas (a dependência mundial do petróleo como o gatilho para uma série de infrações legais e/ou morais). As duas forças desse binômio, tanto o "thriller" quando a "política", trabalham juntas o tempo todo. Isso livra Gaghan de número enorme de concessões habituais nesse gênero do cinema, e é o que talvez ilumine esta primeira (e um tanto ingênua) impressão de que as informações deste filme são por demais embaralhadas.

Depois dos atentados de 11 de setembro já não há quem desconheça o terreno em que "Syriana" pisa. É o petróleo que faz a roda do mundo girar, é por ele que se invadem países, é na defesa do direito de explorá-lo que se atacam outros. A escala é global, acertada em línguas diferentes, tratada em países distantes, através de ligações tão confidenciais quanto notadamente sabidas. Stephen Gaghan se esforça em livrar seu filme do didatismo típico dessas produções, não há cartelas explicativas que situem o tempo da narrativa e a relação de seus personagens, não há narração em off que sublinhe com mais clareza aquilo que acontece na tela. Desde o primeiro minuto já somos jogados dentro desse redemoinho, e o que se busca é justamente essa sensação de estar por dentro, mas ainda sem o conhecimento completo da situação. E não há nessa disposição do diretor outro motivo senão colar o espectador à mesma experiência pela qual passam os vários personagens de seu filme.

Porque ainda que sejam os próprios agentes da indústria do petróleo (e de tudo o que a cerca), ninguém em "Syriana" parece ser realmente capaz de compreender o tamanho dela. Os cinco personagens centrais aparecem totalmente mergulhados em suas próprias trajetórias, e se há algum ponto de contato entre uma trama e outra, ele se dá não por um elogio do encontro (pensemos nos filmes de Robert Altman ou Paul Thomas Anderson), mas porque há nas atividades de cada um a inevitabilidade de uma conexão, por mais inconsciente que ela lhes seja. O agente de operações da CIA Bob Barnes (George Clooney) é convocado a planejar a morte do Príncipe Nasir (Alexander Siddig), sucessor ao trono de um país árabe. Seus chefes dizem que o príncipe é um perigoso financiador do terrorismo e que os Estados Unidos precisam impedir sua escalada no poder. Barnes ignora os reais motivos do assassinato que deve cometer, não sabe que o governo precisa eliminar o príncipe reformista e liberal que quer abrir o mercado de petróleo para a China justamente para garantir que seu irmão, aliado do ocidente, assuma o trono e facilite as ações de uma companhia americana. Companhia essa para qual trabalha o advogado Bennett Holiday (Jeffrey Wright), ainda que indiretamente. Holiday acredita estar investigando possíveis irregularidades na fusão entre a grande Connex e a minúscula Killen, mas o que promove é apenas uma mini caça às bruxas cujo único objetivo é tirar da jogada dois corruptos que poderiam atrapalhar a fusão aos olhos da Justiça americana. Longe desses dois focos, em Genebra, trabalha o consultor de energia Bryan Woodman (Matt Damon), que por conta de uma fatalidade bem-vinda se torna conselheiro daquele Príncipe Nasir de antes. Todos esses personagens, agindo em partes isoladas do mundo, ignoram-se entre si e, mais ainda, ignoram a existência do jovem paquistanês Wasim (Mazhar Munir), que perde o emprego num campo petroleiro da Connex e, sem perspectivas de vida, começa a fazer parte de uma célula terrorista. O trabalho de cada uma dessas pessoas afeta diretamente a atuação das outras, e ninguém parece se dar conta disso.

Há em "Syriana" a mesma disposição de dois outros filmes desta safra ("Munique" e "Paradise Now") em olhar as altas implicações políticas do barril de pólvora do Oriente Médio a partir do baixo escalão. É justamente na costura entre essas duas instâncias eqüidistantes que se percebe a mão de Stephen Gaghan. O diretor espalha pelo filme alguns curtos momentos em que seus personagens parecem respirar acima da pequenez de seus caminhos e lançam sobre a narrativa noções gerais de impacto revelador. Duas, em especial, parecem falar sobre a própria constituição dessa indústria (e que o filme, em nenhum momento, se furta em dizer que é, até a raiz dos cabelos, guiada pelos interesses da América). Primeiro, o deputado interpretado por Tim Blake Nelson diz ao advogado Holiday, prestes a caçá-lo, que a corrupção é a proteção e a verdadeira razão das vitórias dos Estados Unidos em sua jihad hegemônica. Algumas cenas depois, o príncipe Nasir reflete sobre a posição da grande potência, dizendo que quando um país tem 5% da população mundial e 50% do arsenal militar, isso significa que está perdendo seu poder de persuasão. Eis o quebra-cabeça que todos já sabem como montar: as negociações econômicas baseadas no uso orgânico da corrupção, e protegidas pelo poder das armas. No meio disso, podem até haver espiões veteranos, consultores de empresas, advogados, jovens desempregados, e atrás de todos eles uma família, uma história pessoal de tragédias ou alegrias. Se um filme como "Syriana" se dedica a mostrar justamente estas molas da engrenagem, que não nos enganemos. A roda continua a girar, e é impiedosa ao esmagar qualquer peça que se coloque no caminho. A nossa sorte (ou seria azar?) é que, a cada minuto que passa, aumenta a impressão que o momento da auto-implosão desta máquina de guerra está mais próximo.

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