Prepotência habitual




Ao anunciar que vai contestar o relatório da Fundação Nacional do Índio (Funai), que confirma pertencerem aos índios 18.070 hectares no norte do Espírito Santo, a Aracruz Celulose, do alto da sua habitual prepotência, está indo de encontro à promessa do presidente Lula, de que a empresa não mais questionaria o processo de homologação indígena, previsto para ser concluído no final de 2006.

O presidente Lula, quando fez essa promessa aos índios, estava falando com a autoridade de um governo que tem sido extremamente generoso com a empresa. Só no período do Lula ela recebeu, com juros baixíssimos, entre 2 e 4% ao ano, R$ 287,2 milhões, dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Para investir na Veracel, onde a Aracruz é sócia igualitária, recebeu empréstimo de US$ 318 milhões, de um projeto com investimento total de US$ 1,24 bilhão.

Esses aqui citados são publicamente conhecidos, não se sabe se há outros empréstimos, o que é possível, mas os já apontados são o bastante para garantir a palavra do presidente da República aos índios, na sua última vista ao Espírito Santo, no início deste ano. Mas a empresa preferiu desautorar a palavra do presidente.

O que é mais grave nessa resistência da Aracruz, é que dificilmente ela conseguirá ficar com o território dos índios. É meramente uma atitude protelatória. Às custas do BNDES, a Aracruz Celulose faturou - lucro líquido - R$ 3,17 bilhões, nos três últimos anos.

Se fôssemos juntar aos privilégios que ela acumula da área pública, iríamos encontrar uma empresa que construiu seu império às custas dos governos brasileiros.

A atitude de ir contra a palavra do presidente da República mostra o grau de prepotência dessa empresa, acostumada a fazer do Espírito Santo meramente um quintal, onde estão localizadas sua indústria, instalação portuária (um verdadeiro escândalo a transação entre o governo federal e a empresa) e seus extensos eucaliptais. O seu dinheiro não circula no Espírito Santo. Ele circula em São Paulo.

Século Diário e os índios esperam que o governo do presidente Lula reaja a esta nova insolência da Aracruz Celulose.