Pára o gaita, tchê!





Tavares Dias


O baile era bom. A população local comparecia em massa. Pra dizer a verdade, tirante os doentes e seus acompanhantes; os muito idosos; os bebês e suas babás; médicos e paramédicos de plantão; os prisioneiros e os policiais que lhes montavam guarda, era de se dizer que toda a gente daquela pequena cidade sulista se divertia a valer.

A festa comemorava mais uma boa colheita, um ano de tempo propício para os vinhedos e para as vinícolas. O baile acontecia num galpão que outrora abrigara um grande armazém de secos e molhados.

Cabelos loiríssimos, curtos ou esvoaçantes, lembravam os trigais das terras dos antepassados daquela gente loira e de sotaque inconfundível que rodopiava ao som de uma única sanfona.

Não era, contudo, uma sanfona comum. Lemão das Brenha era um sanfoneiro requisitado o ano inteiro para os mais diferentes tipos de festas. Tinha um repertório eclético que envolvia desde canções folclóricas alemãs que enterneciam os corações dos antigos, mas também executava seqüências de canções mais novas e conhecidas, de modo a motivar também os mais jovens a cair na dança.

Dançava-se aos pares, como antigamente e, cá pra nós, conforme é muito mais gostoso. Durante a semana que antecedeu o baile, era grande a ansiedade da juventude local, cada um ou cada uma sonhando com alguém mais especial para uma dança que pudesse levar a uma aproximação maior e terminar em namoro.

Conforme o perfil daquela comunidade, tudo seguia em respeitosa alegria, que afinal tratava-se de uma comunidade conservadora e que prezava a paz e os bons costumes.

Bem, talvez seja exagero dizer que tudo correu o tempo inteiro em respeitosa alegria. É preciso relembrar ao amigo leitor e à amiga leitora que o baile integrava as festividades de uma boa safra vinícola, e que parte do produto estava generosamente disposto, ao longo das paredes do armazém, em enormes barris com torneiras, para que cada um se servisse a gosto.

Bom: uns dizem até hoje que a culpa é do vinho; outros garantem que houve, no caso, mistura de vinho com cachaça, enquanto outros tantos juram que o sujeito quando quer fazer coisa errada não precisa beber nada.

O fato é que lá pras tantas um alemão de uns 50 anos, bigodão, camisa branca, chapéu verde e bermudão da mesma cor, pulou inesperadamente sobre o pequeno palco improvisado, tomou o microfone de Lemão das Brenha, que na hora entoava apaixonada milonga, e trovejou, aos berros, olhando alternadamente para o sanfoneiro e para um ponto da platéia onde uma loirinha de lindos olhos azuis e notáveis airbags choramingava, desconsolada:

- Pára o gaita! Pára o gaita, tchê!

A sanfona pára, de imediato, como imediato é o pasmado silêncio que toma o armazém. O alemão, língua enrolada pelo vinho e pelo sotaque, arma os braços à maneira dos lutadores de boxe, enquanto grita, descontrolado:

- O filha da puto que passou o mão na úbere da meu filha sai pra fora e cai na pau!