Vitória (ES), edição de 27 de fevereiro de 2006    
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"Os pães de açúcar foram absolutamente desconsiderados"

Entrevista com Rosa Grena Kliass



Heraldo Ferreira
Atualizado toda quinta-feira, às 16 horas


Como já foi dito na última coluna, semana passada (nos dias 9 e 10 de fevereiro) foi realizado o Seminário Temático do Planejamento Urbano Interativo do Centro de Vitória. Com o objetivo de conhecer experiências bem sucedidas de outras cidades, a programação incluía palestras com arquitetos e profissionais do planejamento urbano.

Dentre os palestrantes estava Rosa Grena Kliass, arquiteta paisagista formada pela FAUUSP desde 1955. Sua turma foi a primeira a ter aulas de paisagismo na faculdade. Desde o início da carreira, teve que criar suas próprias condições de trabalho, pois ainda não havia uma demanda pela arquitetura paisagística. Por isso, fez com igual afinco e dedicação jardins residenciais, parques e praças públicas. Em 1976, fundou a ABAP - Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas da qual foi presidente do conselho diretivo por cinco vezes, além de ter sido vice-presidente da região ocidental da IFLA - Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas. Atualmente se dedica ao planejamento da paisagem urbana, com destaque para o Plano da Paisagem Urbana de São Luís, tema de sua palestra.

Em termos de arquitetura paisagística contemporânea brasileira, junto com Fernando Chacel, Rosa é referência. Detentora de vários prêmios nacionais e internacionais, ela nos concedeu a seguinte entrevista:

Sua palestra será sobre planejamento paisagístico. O que é isso?
O planejamento paisagístico está para o urbanismo assim como a arquitetura paisagística está para a arquitetura. O planejamento paisagístico é um exercício profissional na área de planejamento da paisagem e a arquitetura paisagística é o projeto. Então, em princípio, você cria um plano da paisagem aonde vão ser definidos programas e projetos e daí são desenvolvidos os projetos paisagísticos.

Aonde ele já foi implantado e quais foram os resultados?
Internacionalmente, eu diria que sua implantação é quase que banal. No Brasil, tivemos algumas experiências, muitas delas frustradas. Mas agora, em 2003, fizemos o plano da paisagem urbana de São Luís que foi desenvolvido como um plano estratégico e já está dando os primeiros resultados.

A senhora é formada em arquitetura. Como se deu este direcionamento para a arquitetura paisagística?
Bom isso aconteceu desde que eu me formei. Realmente eu tive este interesse por desenvolver projetos de paisagismo. Então, aos poucos, fui criando minhas condições de trabalho, pois não existia demanda por arquitetura paisagística.

Como o paisagismo surgiu no Brasil?
Existiram paisagistas em todas as épocas como, por exemplo, Agache, no Rio. Falando de paisagismo moderno, ou melhor, de arquitetura paisagística moderna, quem foi o pioneiro foi Burle Marx, considerado o maior arquiteto paisagista do século, no mundo.

A senhora acredita que o paisagismo brasileiro contemporâneo é a fusão das linhas de pensamento dos dois Robertos: Burle Marx e Coelho Cardoso?
Eu acho que sim.

Como a senhora vê a situação do arquiteto paisagista hoje em dia? E o que mudou da época que a senhora começou até hoje?
Não existia a figura do arquiteto paisagista. Existiam figuras isoladas, como o Burle Marx, o Roberto Cardoso, Waldemar Cordeiro... Dos anos 50 para cá a profissão se desenvolveu e hoje podemos ver uma demanda clara e efetiva de arquitetura paisagística, pelo menos, no Rio e em São Paulo. Hoje existem profissionais que se dedicam somente a esta atividade.

Como a senhora encara a contaminação do mercado de projetos paisagísticos por profissionais de outras áreas (como biólogos, engenheiros florestais, viveiristas, etc...)?
Não diria que é uma contaminação. Nós não estamos ainda suficientemente regulamentados então não existe nada que obrigue a se contratar um arquiteto paisagista. É uma questão de o mercado discernir a qualidade. O diploma de arquitetura não dá as condições para um arquiteto desenvolver um projeto paisagístico. Ele terá que se habilitar, assim como outro profissional, só que com mais facilidade. A arquitetura paisagística é uma profissão ligada a uma categoria de desenho. O arquiteto tem esta habilidade já desenvolvida.

A senhora sempre teve uma atuação profissional muito importante em projetos institucionais públicos. Essa escolha foi intencional, de comprometimento social, ou se deu de forma natural?
As coisas não acontecem assim tão voluntariosamente. Como tive que abrir meu campo de trabalho, não houve uma escolha. Já fiz muitos jardins de residências, de edifícios residenciais. São sentimentos diferentes. Existe uma satisfação específica em fazer um jardim residencial que é diferente de se fazer um jardim público. Claro que hoje em dia me dá maior satisfação fazer um jardim público que o de uma residência. O que não quer dizer eu não o faça com o mesmo empenho.

Como a senhora vê a questão do descaso em relação à da preservação dos conjuntos paisagísticos no Brasil? Não só os naturais mas também os construídos como, por exemplo, os parques Burle Marx e Sarah Kubitschek em Brasília que estão abandonados?
Realmente existe isso, é um problema nacional, mas existe também uma questão de conscientização do valor da arquitetura paisagística. Da mesma forma que a profissão não é valorizada, assim as obras também não. Além do que, o material da arquitetura paisagística é muito vulnerável e com uma dinâmica própria. Por exemplo, o parque que você faz hoje, daqui a 20 anos, ele é outro.

Pelo pouco que viu, quais foram suas primeiras impressões do ambiente natural e construído de Vitória?
Eu acho que houve um descaso muito grande com a paisagem natural. A maior característica do relevo local que são os pães de açúcar foram absolutamente desconsiderados. Há não ser o Penedo que, coitado, se salvou por que não tinha como construir a sua volta.

Em relação à paisagem, Vitória tem jeito?
Qualquer cidade ainda tem jeito. Mesmo São Paulo que é um macro desastre, uma floresta de concreto, a gente ainda consegue fazer alguma coisa...
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