Vitória (ES), edição de 27 de fevereiro de 2006    
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Música de rua e salão



Felicia Borges


  
Foto: Divulgação
  
Pular o carnaval sem música chega a soar estranho nos dias de hoje, mas no século XVII, quando a folia chegou ao Brasil, a diversão dos foliões era com brigas e confusões, mas nada de música como conhecemos hoje. O Zé Pereira foi a primeira manifestação musical, tipicamente carnavalesca, que se tem notícia no país.

O "Zé Pereira" (E viva o Zé Pereira/ Que a ninguém fez mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval) foi introduzido no Brasil na segunda metade do século XIX. A música era um conjunto de zabumbas e tambores, que por ocasião dos folguedos carnavalescos saía às ruas fazendo barulho e contribuindo para a animação daqueles três dias.

Os bailes carnavalescos eram animados pelas polcas, valsas, quadrillas, maxixes, rag-time americanos e algumas toadas sertanejas. As músicas eram executadas sem serem cantadas, por não possuírem letras. Nas ruas, o povo brincava por meio dos cordões, esses sim, com músicas cantadas, a cada ano diferente.

Os cordões carnavalescos foram os primeiros a cantar música durante o carnaval. E foi exatamente para um deles, o Rosa de Ouro, que foi composta, especialmente, a segunda música de carnaval, em 1889: "Ó abre alas", de Chiquinha Gonzaga (Ó abre alas/ Que eu quero passar/ Eu sou da Lira/ Não posso negar/ Ó abre alas/ Que eu quero passar/ Rosa de Ouro/ É que vai ganhar).

O primeiro samba gravado foi "Pelo telefone", de Donga e Mauro de Almeida. A música fez enorme sucesso no carnaval de 1917 e daí em diante começaram a aparecer as composições especialmente criadas para o carnaval.

  
Foto: Divulgação
  
A cada ano novas músicas eram lançadas. No ano de 1926 começam a aparecer tenores e barítonos do teatro clássico entre os cantores de destaque de carnaval. É assim que fizeram sucesso Pedro Celestino com "Eu vi Lili" e "Morro de Mangueira" e Arthur Castro com "Papagaio no poleiro".

No carnaval de 1930, já sem os tenores e barítonos, estouraram três músicas que tiveram grandes vendagens de discos: "Dá nela", de Ary Barroso; "Prá você gostar de mim", de Joubert de Carvalho, mais conhecida como "Taí", música que marcou o primeiro sucesso de Carmen Miranda e a consagrou pelo resto da vida; e "Na Pavuna", de Candoca da Anunciação e Almirante.

Consagração

A partir de 1930 estava consagrada a música carnavalesca. Muitos compositores começaram a criar, especialmente, para o carnaval. No começo existiam cinco gravadoras e cada uma lançava, em média, 20 a 30 discos para o carnaval de cada ano. Os jornais abriram ainda mais espaço para a transcrição das letras das músicas.

Nos salões dos clubes ou nas ruas, o povo cantava animado as música de grandes compositores, como Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, João de Barro, Benedito Lacerda, Haroldo Lobo, Ataulfo Alves e muitos outros que ficaram conhecidos com seus sambas e marchas de carnaval que até hoje são cantados pelos foliões.

A década de 30 é a chamada "década de ouro" do carnaval brasileiro. Dessa época são os maiores sucessos de todos os tempos e que até hoje se posicionam entre as músicas mais tocadas e cantadas em todo o Brasil, como "Mamãe eu quero", "Pierrot apaixonado", "Touradas em Madrid', "Taí", "Na Pavuna", "Dá nela", "Teu cabelo não nega", "Linda morena", "Cidade maravilhosa", "A jardineira" e muitas outras.

  
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A década de 40, apesar de vários sucessos carnavalescos, sofreu a conseqüência da guerra e algumas músicas de destaque tiveram seus temas relacionados com o conflito. Dessa década podem ser citadas, entre outras, "Ala-la-ô", "Ai que saudades da Amélia", "Nós os carecas" e "Chiquita bacana".

A cada década novos sucessos foram surgindo. Das duzentas ou trezentas composições que até então eram feitas normalmente para cada ano, o volume passou, em um ano, para cerca de 1500.

Nos anos 70, houve um declínio e o fim da música tipicamente carnavalesca. As gravadoras, ao invés de discos só com as músicas de carnaval, passaram a incluir uma ou duas faixas de carnaval nos LP's, que lançavam no final de cada ano. Nesse período as Escolas de Samba passaram a gravar um disco especial com suas músicas, conseguindo grande divulgação.

Hoje, foi-se o tempo em que o carnaval era espaço para expressão da arte e da criatividade popular, inspirada nas brincadeiras dos blocos. A festa hoje se tornou um grande negócio, que determina o que desfila nas avenidas e toca nos trios elétricos nas ruas.

 

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