Vitória (ES), edição de 04 de janeiro de 2006    
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Mais que um "filme negro"
O negro não como questão, mas como personagem em "Filhas do Vento"



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


"Filhas do Vento", lançado neste mês em dvd, se localiza perigosamente na linha que separa o cinema de atitude política do cinema puramente panfletário. São vários os fatores que contribuiriam para a queda neste último: é um exemplo raro de filme de ficção brasileiro totalmente protagonizado por atores negros, feito por um diretor negro que sempre tocou na tecla do racismo (seu filme anterior é o documentário "A Negação do Brasil", uma espécie de laboratório para este novo trabalho, que trata da presença do negro nas novelas nacionais). Junte-se a esses dados internos o fator externo do episódio do Festival de Gramado, de onde o filme saiu multiplamente premiado, tendo sido posteriormente revelado pelo presidente do júri, o crítico Rubens Ewald Filho, que os prêmios haviam sido distribuídos muito mais pelo suposto impacto de se premiar um filme negro num estado como o Rio Grande do Sul do que necessariamente por sua qualidade. O que o júri de Gramado talvez não tenha percebido é que "Filhas do Vento" acumula toda essa carga de ser um "filme negro" justamente para ter o direito de não sê-lo exclusivamente. É aí que Joel Zito Araújo escapa do panfleto e embarca numa postura política (e, sobretudo, ética) poucas vezes vista no cinema brasileiro contemporâneo.

  
Foto: Divulgação
  
"Filhas do Vento" está longe de ser um filme sobre o preconceito racial. Há uma espécie de obrigação tácita no cinema que faz com que todos os filmes que tenham um personagem negro devam tematizar o racismo. É assim também com outros grupos excluídos: são raros os filmes gays que não façam da homossexualidade seu maior tema, ou filmes femininos onde o machismo não seja o grande mote. A idéia, por exemplo, de uma comédia romântica estrelada por favelados parece estapafúrdia: se um filme tem favelados, deve ser necessariamente um filme-denúncia. É como se para essas pessoas não fosse dado o direito de viver outras experiências que não a da reafirmação eterna de suas condições sociais. Munido de um diretor com passado de militante e de um elenco todo de negros, "Filhas do Vento" parece brigar o tempo todo pelo direito de transcender essas regras. O preconceito e a discriminação pela qual passam os personagens está sempre presente, mas é apenas um dado importante entre tantos outros presentes em suas histórias. E é aí que reside a grande força do filme (e ainda que esta seja uma afirmação um tanto óbvia, ela está cada vez mais escassa no cinema): são boas histórias bem contadas.

Nesse plano, "Filhas do Vento" segue assumindo riscos. Joel Zito opta claramente pelo melodrama, e é dentro dele que desenvolverá a trama familiar das duas irmãs que se afastam na juventude e que 40 anos depois se reencontram no velório do pai. Essa opção pelo gênero traz uma clara tentativa de comunicação com o público. A intenção não é a de grandes experiências de linguagem, e as regras do melodrama são obedecidas à risca (flashbacks, câmera lenta nos momentos dramáticos, música sentimental, uma trama cheia de conflitos que serão infalivelmente resolvidos no final). Vale menos o desfecho e mais o processo. Há a filha sonhadora que pensa em ser artista de novela e que larga a família no interior em busca de seu objetivo (Ruth de Souza), há a outra filha pé-no-chão sem grandes expectativas futuras (Léa Garcia) e que acaba envelhecendo na casa do pai (Milton Gonçalves), um sujeito bronco mas de bom coração. Entre elas um mundo de histórias e temas que vão pipocando aqui e ali, sem que tirem a atenção do acerto de contas entre as irmãs após a morte do pai. De todas essas histórias e temas, uma talvez ilumine o caminho traçado por Joel Zito neste filme. Para atacar a obsessão da menina pela carreira de artista, tanto o pai quanto a outra irmã insistem no mesmo argumento, o de que a arte representa na verdade uma fuga do real, uma covardia em lidar com o cotidiano que impele a jovem sonhadora a se projetar nas radionovelas que tanto adora. Pois no esperado desfecho positivo, onde depois das várias décadas de separação as irmãs finalmente se reconciliam, vem da irmã pé-no-chão a frase "eu sempre esperei por esse momento... como num último capítulo de novela". Não é apenas um elogio da arte como parceira inseparável da vida. É a afirmação de uma possibilidade que até este filme parecia absurdamente distante: a de que finais de novelas (e de filmes), melodramáticos e cheios de emoção, acontecem também em famílias negras. Os personagens estão aí, suas histórias estão aí, basta que alguém se disponha a encampá-los com a honestidade com a qual Joel Zito Araújo impregna seu "Filhas do Vento".

(e se todos esses parágrafos não deram conta de incentivar uma olhada neste filme, vai aqui uma última tentativa: existe algo de indescritível no sorriso de Léa Garcia ou nos olhos marejados de Ruth de Souza, algo de tão profundamente encantador, um reconhecimento imediato destas atrizes que todos sabemos e acompanhamos há tantos anos, mas que aqui parecem vestidas daquela aura raríssima que nos fazem pensar que se o cinema tivesse sido inventado exclusivamente para registrar seus rostos, já teria sido uma invenção para lá de valiosa)

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