Hora da faxina




Geraldo Hasse


Faltam só nove meses para rifarmos os canalhas com nossas primitivas espingardinhas eleitorais - e sintam a desigualdade: cada eleitor tem uma só bala, enquanto muitos candidatos a cargos públicos montam gangues que atuam de forma mafiosa diante de nossas barbas - mas eu repito, imbuído do mais fraterno espírito natalino: feliz 2006 para todos nós, inclusive para os que forem deseleitos na jornada cívica de outubro próximo.

Não devia me queixar. Num jantar com amigos, nessa última semana de 2006, comi carne de ovelha, tomei vinho argentino e na salada, junto com o repolho e a maionese, havia nozes e uvas passas. É verdade que algumas vezes durante o ano almocei pastel com suco de laranja na Rodoviária, mas 2006 não foi dos piores. Pode-se porém concordar com a versão de que o grande vencedor do ano foi Lula, só porque se manteve lá onde o colocamos?

Jogo duro, companheiros. Já escrevi que não tem graça ser campeão como o foram o Corinthians e o São Paulo. Eles simplesmente cumpriram o regulamento. Lula também, daí a pergunta: cadê a força ética (com sua envergadura épica) dos vencedores insofismáveis?

Podem dizer que sou ingênuo ao sonhar com governantes possuidores daquela grandeza dos livros de História, mas a pergunta é inevitável: temos de nos conformar com esses pobres heróis do nosso cotidiano que se vangloriam de pagar adiantado US$ 15,5 bilhões ao FMI sem pedir um descontinho sequer?

E depois de tantos anos não vemos nenhum repórter perguntar qual o juro pago por esse gigantesco empréstimo-ponte... Parece que o conformismo nos esterilizou. Precisamos reagir.

Não há dúvida, esse pagamento-monstro ao FMI faz parte do projeto da reeleição de Lula.

Caímos numa armadilha perversa. Os sinais estão trocados. A esquerda renunciou à utopia da justiça e da igualdade; acredita que já faz muito ao beneficiar 8,5 milhões de famílias com uma esmola disfarçada de bolsa.

Sim, é preciso matar a fome dos deserdados da fortuna, cuidar dos feridos e consolar os aflitos, mas como podemos nos conformar com uma administração tão submissa a um sistema econômico-financeiro tão perverso? Quem nos governa é a direita. E o Lula lá, usando a caneta para atender um lado e o microfone para dizer ao outro que não é bem assim, o povo unido jamais será vencido.

Façamos de 2006 o ano da vacinação contra a demagogia.

ghasse@th.com.br