Rio Doce: novas agressões





Ubervalter Coimbra


Duas agressões, uma nova, e outra ampliada, ameaçam o Rio Doce. As tradicionais seguem seus desastrados cursos.

Das tradicionais, só para refresco de memória, como se diz em jornalismo antigo, uma é o desmatamento desenfreado do pouquíssimo que resta de espécies nativas em toda a bacia, facilitando a erosão que entope o leito do rio de areia. A profundidade média do Rio Doce passou de 2,5 metros, nos anos 60 e 70, para 70 a 80 centímetros.

A vazão média do Rio Doce é de 925 metros cúbicos por segundo (enche 925 caixas de água de 1.000 litros em um segundo). Mas, como não há vegetação nativa que permita a infiltração na terra da maior parte das águas de chuva da bacia, tudo desce de vez nas enchentes provocadas pelas cheias a partir das primeiras de chuvas. Depois, é escassez de água.

E, ainda das agressões tradicionais, os plantios de espécies exóticas, como o eucalipto, este voraz consumidor de água durante sua fase de crescimento, e que é cortado tão logo fica pronto para virar celulose, aos sete anos; a contaminação por agrotóxicos carreados para seu leito, e, ainda, o esgotamento doméstico e industrial (com seus metais pesados) sem tratamento.

Uma das novas agressões ao Rio Doce é a Usina Hidrelétrica de Aimorés, construída na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Seu reservatório estará cheio nesta sexta-feira (30), penúltimo dia de 2006, quando começa a operar.

Contra a usina praticamente tudo. A começar: se localiza em Minas Gerais por uma fraude, lamentavelmente praticada com ajuda de pessoas infiltradas no governo do Espírito Santo, inclusive durante o licenciamento ambiental, feito pelo Ibama. Por indicação técnica, a usina teria que ser no Espírito Santo, na altura da sede de Baixo Guandu.

Construída nesse ponto, não secaria o leito do rio em 12 quilômetros, como toda a conseqüência nefasta para os moradores de Baixo Guandu e da sede da cidade mineira, que aliás já foi capixaba, de Aimorés. Estas cidades vão perder muito do ponto de vista ambiental: há previsão de aumento da proliferação dos mosquitos transmissores de doenças como o da febre amarela e da dengue. E de cobras e escorpiões no leito do rio neste trecho sem água.

A usina tem capacidade instalada de 330 MW (dividida entre três turbinas 110 MW, cada). Irá assegurar a oferta de 1,5 milhão de MWh/ano de energia elétrica. O empreendimento exigiu investimento de R$ 550 milhões, e é da CVRD, com 51% das ações, e da Cemig, que detém 49% das ações.

A segunda nova agressão ao Rio Doce: para atender aos interesses da Aracruz Celulose, o prefeito Ademar Devens (PDT) quer aumentar o desvio de suas águas para o rio Riacho. Suas justificativas para solicitar ao Iema a licença ambiental para aumentar a transposição do Rio Doce não se sustentam. Se tiver sucesso, como é esperado, considerando a conivência do governo do Estado com a multinacional degradadora do ambiente no Estado, o atual prefeito reedita crime ambiental que foi denunciado à Justiça Federal, inclusive pelo Ministério Público Federal (MPF).

A primeira sangria do Rio Doce para atender a Aracruz Celulose teve como responsável o ex-prefeito Luiz Carlos Cacá Gonçalves (então no PSDB), este aqui nefasto para o meio ambiente e para os cofres públicos do município (já foi condenado por improbidade administrativa).

Os capixabas em particular, mas também os mineiros, têm o dever de estudar os problemas causados ao principal rio de seus estados. E buscar soluções para minimizar ou sanar os problemas antigos, e os novos, criados pela Usina de Aimorés e pela sangria de sua foz.

Uma boa e preliminar medida seria determinar que o canal aberto para atender a Aracruz Celulose fosse fechado. Imediatamente fechado! Outra, seria suspender a licença de operação da usina, dada pelo Ibama, até que fossem implementadas as condicionantes apontadas em tais estudos. O Ibama, pasme, permitiu o aumento da cota máxima da usina para 90 metros, quando estava inicialmente licenciado o enchimento do lago até a altura de 84 metros.

Pois, continuadas as agressões antigas e novas agressões ao Rio Doce, fora do período das chuvas, em poucas décadas, água no rio só no reservatório da Usina de Aimorés. E o que sobrar, será levado para a Aracruz Celulose: não haverá água na foz natural do Rio Doce, em Regência.

A hora é de estudos competentes e ações enérgicas para salvar o Rio Doce.

Que cada um cumpra com o seu dever!