2005, o ano que não terminou




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Vamos para 2006 com a agenda de 2005, o ano que não terminou. Em tempo de balanço de final de ano, o nosso desafio é buscar a superação da agenda de 2005 e a construção da agenda para 2006.

Olhando para a agenda nacional, vemos todos os grandes resquícios e conseqüências de 2005. Na política, na economia e no tecido social. Resquícios do ano que não terminou.

No plano político, vimos a dilaceração da Política como arte do possível e como canal de agregação e articulação de interesses. No lugar disto, surgiu o espetáculo, o escândalo, a disputa de todos contra todos. O saldo é a anti-política, vamos dizer assim.

Na essência, o Congresso produziu três CPI's, amplificou os holofotes, levantou hipóteses e indícios, anunciou conclusões, mas não teve capacidade política para atacar o mal pela raiz: não teve capacidade para costurar uma reforma política, a mãe de todas as reformas.

Sendo assim, como adiamos a reforma mais uma vez, vamos entrar em 2006 com a agenda política de 2005. E sem ter atacado a raiz dos problemas que causaram a crise política de 2005. É lamentável.

Só nos resta torcer para que a abertura da temporada eleitoral para valer, lá para abril, contribua para que a agenda de 2005 seja superada. E que o processo político-eleitoral venha a oxigenar a agenda política. Não custa sonhar.

No plano econômico, continuamos prisioneiros da agenda-dos-juros. Condimentada pela agenda-do-superavit primário. A questão da dosagem da taxa de juros é importante, bem como as questões do superávit primário e da contenção dos gastos correntes do governo. Mas precisamos também superar esta agenda, no sentido de avançar na direção de outras questões fundamentais para o desenvolvimento sustentável e duradouro.

Dentre estas questões fundamentais, estão a questão da geração de taxas de poupança e investimentos compatíveis com a necessidade de sair do patamar de 3% de crescimento para 6% a 7% ao ano. Melhorar as condições para investir em capital humano (educação) e em capital físico (infra-estrutura, principalmente). E estimular em nós, brasileiros, a prática da poupança a longo prazo.

Não é desejável, nem suficiente, financiar o desenvolvimento brasileiro ou com inflação ou com capital externo. É fundamental criar a cultura da poupança interna de longo prazo.

Ainda, a agenda econômica precisaria, também, estimular mais a superação de alguns obstáculos ao desenvolvimento sustentável, tais como: os problemas regulatórios (principalmente na área de saneamento); as deficiências de infra-estrutura; a alta taxa de informalidade na economia, e a baixa qualidade dos serviços públicos.

Também aqui nas questões econômicas, vamos torcer para que o debate que vai ser gerado pela disputa política-eleitoral de 2006 possa incorporar estas questões. E avançar na formulação de uma política econômica que contemple as questões dos juros e do superávit, mas avançando um pouco mais.

Tudo somado, a agenda de 2005 contribuiu, principalmente no campo político, para o esgarçarmento do tecido social e para a geração de uma imensa desilusão coletiva. Superar esta desilusão, e criar novos desafios e projetos nacionais, é a tarefa fundamental da agenda de 2006. Enquanto isto, vamos convivendo com a agenda de 2005, o ano que não terminou.