Vitória (ES), edição de 05 de janeiro de 2006    
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A necessidade vital de escrever



Cristina Moura



  
Foto: Divulgação
  
O trabalho essencial do repórter é perguntar. Como de hábito, durante a profissão, ele se depara com as mais diversas formas de apreensão ou de reação por parte dos entrevistados. Ao receber a pauta desta semana, procurei, como repórter, seguir o caminho lúdico e desafiador da pauta que meu editor, Vitor Lopes, propôs.

Numa dessas empreitadas, liguei para a escritora Anne Ventura durante toda a manhã da segunda-feira (02). Não consegui, celular desligado. Em seguida, celular fora de área. Liguei para uma pessoa que conhecia Anne, mas o caminho indicado foi o mesmo: ligar para o celular. Quando achei que estivesse frustrada a minha tentativa, resolvi ligar à tarde. Consegui.

Alguns entrevistados pedem a entrevista pessoalmente. Outros, gravada. Outros não se importam de uma entrevista por telefone, o que é comum em todos os veículos de comunicação. Mas, outros, muito poucos, os que gostam de escrever mesmo, preferem por e-mail, para que o repórter "construa" com os dados uma matéria. Com Anne foi assim.

Quer dizer, mais ou menos. Ao acessar meu endereço, fiquei tão feliz com o resultado que arrisco dizer: o leitor também vai gostar. Conversar com escritora é outra coisa. Não foi à toa que ela foi selecionada pela Secretaria de Estado da Cultura para a publicação da sua "Enquantamento". Imediatamente, liguei para o editor e sugeri que a entrevista fosse publicada na íntegra. Confira.

Quais foram as suas outras experiências literárias (anos de publicação, editoras, gêneros abordados...)?

Talvez este seja o meu primeiro trabalho, no sentido de satisfação. Já publiquei algumas coisas, como poemas, por exemplo, mas eram brincadeiras de menina, poemas que escrevia na infância e adolescência. Assim surgiu o meu primeiro livro, 1996, que possuía até poemas que escrevia sob encomenda, para alguns colegas de escola. Hoje os considero uma bosta, mas fizeram parte do meu primeiro contato com a escrita. Depois surgiram algumas publicações em coletâneas, como as minhas primeiras narrativas em "No Canto do Olho", 1998, quando ainda tinha 17 anos, outros poemas insistentes em "Escritos Entre Dois Séculos", e, por fim, um conto mais recente, publicado em "Instantâneo". Hoje não me considero poeta, e penso que talvez possa me reconciliar futuramente com a poesia apenas através da música. Prossigo com a narrativa, que me alimenta cada vez mais, e já começo a conviver melhor com meus trabalhos. "Enquantamento" é a minha estréia solo desta escrita mais madura, ousada. Pode ser que, desta vez, não sofra de depressão pós-parto, como sempre me aconteceu, ou não. O fato é que me sinto mais segura e desejo os leitores de "Enquantamento". Pessoalmente, este será o meu primeiro livro. Se irão fazer algum proveito de minha narrativa, isso já não está nas minhas mãos. Preciso escrever, e não se trata mais de catarse para minhas angústias, mas de uma necessidade vital e prazerosa, ainda que algumas vezes provoque em mim certa paixão.

Quais são as suas influências? Ou, se preferir, suas referências na Literatura?

Não penso que poderia citar nomes, ou influências, pois tenho à parte uma vida acadêmica que me proporcionou muita leitura e não possuo o menor controle sobre o que penetra ou não na minha escrita. Além disso, há influências nada literárias das quais quase nada se comenta. Às vezes um momento de vida transforma toda a nossa concepção de arte. Escrevo assim, muito mais ligada ao que vivo do que ao que leio. Não que haja qualquer preocupação biográfica, espero que isso esteja claro. Mas quando algum outro texto se enfia dentro do meu, é porque me trouxe uma lasca de mundo. Neste sentido costuro com retalhos de todo o tipo de arte com a qual mantenho contato. Sei que a literatura já não goza da mesma nobreza que há algum tempo atrás, mas acho isso excelente. O que mais me atormentaria seria escrever para um seleto grupo de intelectuais. A literatura deve estar para todos, como os botecos. Por isso me agrada o fato desta publicação ser gratuita e ter ampla distribuição nas escolas e bibliotecas de todo o Espírito Santo. Estive viajando o Estado através do projeto Oficina da Palavra e pude perceber que há, ao contrário do que alardeiam, muitos jovens que se encantam com a literatura de uma forma especial. Faltam mais incentivos como este projeto louvável, da Secretaria de Cultura do Estado, que proporciona o contato direto, nada pedagógico, entre o povo e a literatura.

Por que "Enquantamento"? Por acaso teria a ver com quantum, quântico, quanta?

Claro, e também não. Bem, é um bocado desagradável explicar títulos, nem sei se isso seria possível. Entretanto, uma coisa posso revelar: a palavra, para mim, pode condensar o mundo tal qual ele me arrebata. Resumindo, o que interessa é que nós somos todos reveladores de um sistema mal passado.

São quantos contos? Por que escolheu o conto?

O dobro da metade, como diria meu bom pai angolano. Também não creio ter escolhido o conto, não há a opção sistemática de um gênero, ou qualquer outra fôrma de pão. Quando chego a pensar que aquilo que estou escrevendo é um conto, trato logo de experimentar limites, dentro da própria lógica do leitor. Dêem o nome que bem entenderem, para mim é, antes de mais nada, narrativa. Esta palavra, sim, me diz muito, ainda que mantenha alguma coisa em segredo.

Saiba mais!

Clique aqui e leia o conto "Gastura",de Anne Ventura, publicado na coletânea Instantâneo

Clique aqui e leia a primeira matéria da séria sobre os escritores selecionados pela Secult-ES para publicação em 2006. Com Douglas Salomão


 

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