O espectador apressado em sair da sala de cinema logo após a projeção de "Querida Wendy" (em cartaz no Cine Metrópolis) pode perder uma informação fundamental para a experiência que acabou de presenciar. Nos créditos finais, logo após o nome do diretor Thomas Vinterberg, surgem as inscrições: "escrito por Lars von Trier". Não que isso fosse alguma charada ou que o filme disfarçasse os traços de seu roteirista, pelo contrário. Os que se preocuparam quando Trier sugeriu algumas vezes, em entrevistas à época do lançamento de "Manderlay" em Cannes, que sua trilogia americana talvez nunca fosse concluída, podem se sentir mais reconfortados com este "Querida Wendy".
Com uma meia dúzia de mudanças leves, o Dick protagonista deste último poderia muito bem ser a Grace da trilogia. O assunto do filme, a fixação dos americanos por armas, também passaria como um bom tema para o terceiro capítulo da série. A ação de "Querida Wendy" se dá essencialmente na praça de uma cidade do interior dos Estados Unidos, espécie de cenário-laboratório que, apesar de real, lembra em muito o modelo utilizado por Trier em seus filmes anteriores. O roteirista vai ainda mais longe, chegando em vários momentos à auto-citação, como quando faz com que o grupo de adolescentes pacifistas que funda um clube de armas situe suas atividades numa mina de carvão abandonada (o mesmo lugar em que a Grace de "Dogville" se esconde dos gângsters que a procuram), ou quando nomeia a arma de um dos adolescentes de Lyndon, numa referência ao "Barry Lyndon" de Stanley Kubrick, em cuja estrutura narrativa Lars von Trier diz ter se inspirado para seus trabalhos recentes - e não deixa de ser divertido ver nas mãos do jovem Huey o mesmíssimo modelo de arma que o protagonista de Kubrick usa no duelo que muda sua vida. Porém mais que essas pequenas referências, é a própria construção dramática de "Querida Wendy" que identifica seu roteirista, que aqui repete os mesmos equívocos que tornaram "Manderlay" uma experiência tão constrangedora (equívocos sobre os quais já tratamos numa coluna anterior. Link ao final da matéria).
O que livra "Querida Wendy" do fiasco é o fato de que, por trás das câmeras, caiba ao diretor Thomas Vinterberg a tarefa de verter as palavras de Lars von Trier em imagem. Com a ressalva de que ambos são parceiros de longa data e fundadores do movimento Dogma 95, não deixa de ser curioso o tratamento que Vinterberg dá ao roteiro do amigo. Consciente do esquematismo que envolve seus personagens e que fatalmente provoca situações igualmente esquemáticas, é na base da mais desavergonhada galhofa que o diretor leva seu filme. O aspecto humorístico já estava presente em "Manderlay", mas lá nunca era assumido como tal, sempre suplantado pela suposta seriedade da mensagem a ser passada. Com "Querida Wendy", Vinterberg parece querer muito menos. Todos os excessos de profundidade política são cortados ou resumidos, porque não é isso que interessa ao diretor. A grande sacada do filme, manjada desde a sinopse, sobre o paradoxo de um clube secreto que se funda nos princípios do pacifismo e da posse de armas (e que, na cabeça de Trier, é uma metáfora para os paradoxos da América militarista e ao mesmo tempo guardiã da paz mundial), essa sacada em nenhum momento é levada à sério por Vinterberg. Não há no filme nenhum discurso sobre esses temas, e o que se faz é apenas passar por eles, como uma das várias paradas obrigatórias numa estrada que pretende outros destinos.
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Foto: Divulgação
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| Dick Dândi-Leão(Jamie Bell, no centro) e seus amigos do clube de armas
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E quais são os destinos de "Querida Wendy"? Um grupo de adolescentes vivendo mil aventuras longe dos olhares inquisidores dos pais? Passagens subterrâneas, fantasias, ritos de iniciação, duelo com vilões? Em cada personagem um tipo reconhecível: o líder bonito e esperto, o nerd que sabe tudo sobre armas, o mais incapacitado que também é o mais corajoso, o bobalhão que fala pouco, a menina que desperta no líder seus instintos mais primitivos e o rapaz que ameaça sua liderança justamente por atrair a menina? "Os Goonies" do cinema dinamarquês, "Querida Wendy" sai-se como um bizarro filme adolescente de aventuras fantásticas cujo subtexto não é um tesouro perdido, mas a política do armamento. Essa gozação com o próprio tema é notável no uso que Vinterberg faz dos efeitos gráficos, com inserções de desenhos e diagramas versando sobre as características pessoais dos personagens (bem à moda "um super-herói e seus poderes"), e sobretudo no uso da música. Todo o trecho que mostra as peripécias dos jovens com suas armas poderosas é regado com o rock do The Zombies, tendo seu auge no momento em que Dick decide romper o juramento de não usar suas armas para matar, ou de acordo com o eufemismo adotado pelo grupo, para "amar". No trecho final, um combate épico com a polícia, as guitarras em fúria são substituídas pelo sentimentalismo dos violinos-padrão do cinema pipoca, culminando com um coro de igreja que canta "glória, glória, aleluia". Uma cretinice bem-vinda que nos leva a considerar que, diferente do que a atual fase de Lars von Trier parece afirmar (e que, de fato, é uma exceção numa carreira que já rendeu "Dançando no Escuro" e "Dogville", e do lado de Vinterberg, "Festa de Família" e "Dogma do Amor"), se há mesmo algo de podre no reino da Dinamarca, que pelo menos se tire algumas risadas disso.
Saiba mais!
"Querida Wendy" estreou na última semana no Cine Metrópolis, com sessões às 17h e às 21h.
Clique aqui e leia a coluna sobre o filme "Manderlay", de Lars von Trier.
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