Vitória (ES), edição de 10 de janeiro de 2006    
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Sonho de cinema caseiro esclarece a vida



Felicia Borges



  
Foto: Acervo Vitoria Cine Video
  
Seu Manoelzinho em palestra no 12º Vitória Cine Vídeo

"Hoje eu não tô trabalhando mais não. A fama levantou muito a minha cabeça", fala entre risos Seu Manoelzinho. Gente simples, ele tem como mérito ser um dos maiores cineastas do Estado. Suas aparições na mídia nacional o tornaram conhecido, mas, apesar da fama, é no telefone de uma vizinha que ele consegue ser encontrado.

"Só tenho nome mesmo. Porque se for para produzir um filme com R$ 500, como eu fazia lá no início, hoje eu não tenho. Por enquanto está só fumaça, o fogo ainda não apareceu", diz. Mesmo com pouca instrução - ele é analfabeto - Seu Manoelzinho cria suas histórias, dirige os atores e os técnicos e ainda protagoniza suas produções.

Apesar de não ter nenhuma formação, nenhum curso de cinema, ele, que antes era ajudante de pedreiro, já tem mais de 20 filmes no currículo. Experiência o bastante para ser convidado a ministrar uma oficina de direção dentro do projeto Ateliê Arte e Comunicação da Lei Chico Prego de Incentivo à Cultura da Serra.

  
Foto: Acervo Vitoria Cine Video
  
Mesmo com a fama, Seu Manoelzinho ainda tem poucos recursos para filmar
"A intenção é justamente quebrar esse preconceito. Mesmo não tendo nenhuma formação ele é genial. Eu quero aproveitar essa técnica dele, como ele faz. Eu quero que ele passe justamente esse clima que ele utiliza", diz o autor do projeto, o também diretor Ricardo Salles de Sá, que também vai ministrar uma oficina paralela a de Seu Manoelzinho.

Eu queria ser como eles

A paixão pela sétima arte começou quando trabalhava em um cinema na cidade. "Eu era muito apaixonado por cinema. Era não, ainda sou. Ia para a sala de cinema e ficava imaginando fazer filme igual ao desse povo. Só que os meus recursos não dá para competir com eles", conta Seu Manoelzinho como foi seu início lá nos anos de 1988, na cidade de Mantenópolis, no sul do Estado, onde vive até hoje. "Agora as coisas estão mais fáceis. Antes para fazer um tiro eu colocava o toca-fitas atrás da câmera, agora faz no computador".

Ele já realizou mais de 20 longas-metragens em fitas VHS, um equipamento caseiro de vídeo e dinheiro do próprio bolso. "Eu gosto mais de ação. Já fiz romance também, mas é muito lento. Ação dá mais emoção pro povo", diz. Os filmes de Seu Manoelzinho têm direito a revolver de espoleta, bombinhas e ketchup como sangue, e tudo mais o que sua brilhante mente criativa inventa.

As locações são pastagens, beiras de estrada de terra e casarões abandonados da cidade. Os atores são pessoas simples do local. Além de todo trabalho de criação do filme, Seu Manoelzinho também atua. "Eu só faço o mocinho", admite. É na quadra de esportes de Mantenópolis que ele faz as primeiras projeções de seus trabalhos.

A simplicidade e a simpatia de Seu Manoelzinho sem dúvida cativam a todos, mas é principalmente sua força de vontade na busca do sonho de fazer filmes que fizeram dele uma celebridade. Como é analfabeto, ele pensa nas histórias e outra pessoa escreve o roteiro. "É um negócio que vem de cabeça mesmo [risos]. As cenas do filme entram na minha cabeça igual entram no computador. Aí eu monto o filme mais ou menos trinta dias depois que eu pensei a história e em cinco dias eu faço o filme", explica como é seu processo de produção.

A fama e as viagens que faz pelo país fazem a alegria dele. Seu Manoelzinho parece uma criança empolgada com um brinquedo ao falar de seu trabalho como diretor de cinema. "Eu acho isso tudo muito divertido. Isso é uma brincadeira pra mim".

O outro lado da fama

A última produção foi o faroeste sobre um xerife local "O Homem Sem Lei", trabalhando com o recurso recorde de R$ 5 mil. O filme, que já havia sido feito em 2003, foi refilmado com recursos da Secretaria de Cultura do Estado, uma câmera Panasonic M 3000 e elenco com 40 atores.

Fascinada pela história de Seu Manoelzinho, Alana Rosa Batista Almondes, coordenadora de cultura de Mantenópolis, foi selecionada pelo projeto Revelando Brasis, uma parceria entre o Ministério da Cultura e o Instituto Marlin Azul, de Vitória, com o texto "O Menino Que Sonhava em Fazer Faroeste".

O vídeo de Alana, "O Sonho de Loreno" conta a história de Seu Manoelzinho, que ficou famoso por conta dos filmes que realiza com uma velha câmera VHS. Servente de pedreiro, ele cresceu vendo fitas de faroeste no cinema em que trabalhava. O tempo passou, o cinema fechou e ele começou a fazer seus próprios filmes, que incluem títulos como "Loreno, o Gatilho Mais Rápido do Oeste" e "A Vingança de Loreno" (Loreno é o sobrenome de Seu Manoelzinho).

  
Foto: Acervo Vitoria Cine Video
  
A diretora Alana Almondes entre crianças e Seu Manoelzinho
Com 15 minutos de duração, a produção aborda não só a paixão de Seu Manoelzinho pelo cinema, mas também "o outro lado da fama". Depois de aparecer em programas como o "Mais Você", da Rede Globo, e em jornais locais, ele continua tendo que enfrentar problemas comuns na rotina de um diretor, como a falta de recursos e atores exigindo melhores cachês.

Oficina

A oficina de direção com Seu Manoelzinho acontece entre os dias 21 de janeiro e 3 de fevereiro em Carapebus, na Serra. Mais informações sobre as inscrições para a oficina podem ser obtidas com o autor do projeto Ateliê Arte e Comunicação, Ricardo Salles de Sá, pelos telefones (27) 3324-6200 ou 9998-0859.

Na primeira semana vão ser feitas aulas e na segunda semana vai ser feito um filme. O roteiro é de Seu Manoelzinho, que já adianta um pouco da história da comédia, toda pensada em sua mente, "A gripe do frango": uma lei determina o extermínio de todos os frangos devido a uma doença que vem atingindo as aves. Um amigo do personagem interpretado por Seu Manoelzinho é transformado em frango e ele precisa descobrir qual frango é o seu amigo entre os outros para esconder o animal e salvá-lo da morte.


 

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