O ruído constante das ondas batendo na areia da praia inspirou mais de uma canção de Dorival Caymmi no século XX, mas quem agüenta ouvir por muito tempo o choque fragroroso das vagas contra os rochedos?
Sim, o schlep-schlep da beira do mar é altamente terapêutico, mas nós seres humanos precisamos de outros ruídos para tocar o dia-a-dia. Precisamos também da ruidosa paz das florestas, do canto dos pássaros e do silêncio dos campos batidos pelo vento.
Aprendemos a gostar da buzina passageira do trem que cruza nossos subúrbios e até apreciamos o sininho metálico dos vendedores de biju ou de quebra-queixo, como aquele cariacicano que há anos rompe a pasmaceira das tardes de domingo em Manguinhos com seu pregãozinho insidioso.
Em outras palavras, a diversidade de sons é uma necessidade com a qual já nos acostumamos; ela bem poderia fazer parte da cesta básica da cidadania plena, com os limites inerentes às civilizações realmente evoluídas. Palmas para quem merece e vaias para quem excedeu as melhores expectativas humanas.
Fora São Paulo, não sei de nenhuma cidade brasileira que tenha estabelecido limites (e penalidades) para a produção de sons urbanos. Tampouco ouvi falar que alguma administração municipal tenha apreendido equipamentos de som empregados por produtores de poluição sonora, mas não tenho dúvidas: os órgãos ambientais deviam punir com rigor todo cidadão que contamine o ambiente com alto-falantes instalados em veículos de som - caminhões, camionetas, motos e até bicicletas.
Voltando às origens deste texto e recordando o direito civil ao silêncio e à escuta de sons civilizados, por que temos de aturar a musiquinha roufenha emitida pelos caminhões de distribuição de gás de cozinha?
Quem autoriza (a não ser o direito à livre iniciativa, que vai até onde interfere no direito alheio) um vendedor de frutas a invadir as ruas anunciando em altos brados que oferece melancia, abacaxi ou outra mercadoria por tantos reais?
Com que direito um automobilista estaciona na praia, abre a tampa do capô e bota um som de baião, pagode ou vanerão nas alturas, obrigando toda a redondeza a ouvir sua música preferida, na mais desavergonhada das agressões sonoras?
Em nome da despoluição, doravante toda municipalidade deve exigir alvará de uso de alto-falante em público, qualquer cidadão fica autorizado a pedir respeito ao equilíbrio ambiental e todo guarda obriga-se a impor silêncio aos infratores.
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