Antes que a cara leitora e o caro leitor, acostumados a este nosso papo franco que semanalmente levamos (acerca de coisas que afligem, alegram e/ou fazem pensar a nós todos, indistintamente, em nossa condição de seres em construção, projetos de gente equilibrada e supostamente do bem), possam pensar que o cronista resolveu, subitamente, meter-se a fazê-los vestir calça em lagartixa, que é o mesmo que fazer alguém de bobo ou induzi-lo a tentar o impossível ou muito difícil, esclareço, para aquelas e aqueles a quem o esclarecimento é necessário: tertúlia para adormecer bovino é apenas, e nada mais, nada menos, que simplesmente a velha conversa pra boi dormir.
Uma vez que alguém já disse que não há formulação mental, por mais brilhante ou disparatada que seja, que já não tenha sido proposta por algum tarado grego, sinto-me no direito de, sem jamais pretender reinventar a roda, ou o quadrado, ou a quadratura do círculo, ou mesmo qualquer figura, plana ou espacial, ou ainda de linguagem, de sintaxe ou de retórica, mas apenas de convidar o leitor a se divertir comigo. O setor da diversão, creiam, meus 16 leitoras e leitores, é aquele em que transito com mais desenvoltura.
Todas as poucas mulheres de fato me amaram, mesmo naqueles casos em que o desfecho possa não ter sido lá muito divertido, foram unânimes em reforçar que minha característica maior, para lá do grande amante que meu ego insiste em dizer que sou, malgrado as conhecidas inconfiabilidades próprias do ego, é o bom humor, a capacidade de rir-me da própria desventura, a constante busca da alegria. Para além da qualidade e da quantidade de orgasmos que já conseguimos compartir, minhas ex-companheiras e eu - e, acredite, felizmente não foram poucos, mérito que divido em 50% para as partes, sem qualquer dificuldade -, todas afirmam, unanimemente, que o meu maior referencial é o bom humor. Viva.
Ah, mas não há tristezas? Sim, claro. Tristeza, angústia, depressão, isso tudo é do jogo. Mas a pedra de toque, a espinha dorsal, o divisor de águas é a alegria.
Oswald de Andrade, acerca de quem nada preciso dizer para o leitor culto, disse que "a alegria é a prova dos nove." Duvidar, quem há de?
Popularizando a conversa, sem descambar para o grotesco, registro, porém, algumas proposições caboclas, vindas dos lugares onde não bate o mar. Mais precisamente de Minas, em primeiro plano, e do Centro-Oeste, igualmente rico em sabedoria popular, sem prejuízo da riqueza de nenhuma outra cultura ou lugar que abunda neste Brasil, o Espírito Santo especialmente incluído.
-"Qualé os três trem que demora mais a acabar?", pergunta o matuto.
Sabem não, Doutora e Doutora?
-"Motor da Chevrolet, solado de pé e xereca de muié."
Espanto geral.
Prossegue o matuto, machista como só ele:
-"E os três trem mais sem gosto?"
Diante do silêncio, só lhe resta explicar, um tanto constrangido, é verdade:
-"Cerveja quente, boi doente e muié da gente."
-"Oh", murmura, entredentes, a leitora mais feminista que não capta a infantil alegria do roceiro. É quando então o mineirinho formula:
-"Qualé os três trem mió do mundo?"
Os doutores se entreolham. Depois de um caminhão de livros, não sabem.
"O dinheiro, a muié e o bicho de pé."
-"Ah", pondera o circunspecto Doutor, "dinheiro e mulher, tudo bem, mas bicho de pé?"
E o mineirinho, com aquela cara de cachorro que peidou na igreja, explica, candidamente:
-"Uai, Doutor, e do que adianta ter dinheiro e ter muié, se o bicho num ficá de pé?"
Muito mais, cara leitor e cara leitora, do que eventualmente chocar a um ou a outra com passagens um tanto chulas, o que o colunista pretende é apenas remeter-nos (sim, já que o colunista vai junto, porque é feio mas não é bobo), à sabedoria da nossa gente.
Deve fazer tempo, né?, que você não vai ao interior, resgatar os vínculos que alguma geração de sua família deixou por lá, há não mais que 100 anos.
Pois eu peço licença pra lhe dizer, no espaço de amigo: pessoa que não tem raiz é feito farinha, vai pra onde ventar.
Meu pai, que de bobo não tinha nada, dizia, pra espantar gente metida a sabida:
"Em matéria de principalmente, nada mais certo do que sem dúvida alguma."
Brincar é bom, verdade?
Até semana que vem.
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