Vitória (ES), edição de 10 de janeiro de 2006
 

Assentamentos do Estado terão sistema agroecológico


Flávia Bernardes


Um projeto de manejo da agrobiodiversidade promovido pelo Movimento Sem Terra (MST) no Espírito Santo deverá - até o final de fevereiro - receber R$ 250 mil do Ministério do Meio Ambiente (MMA), para plantar sementes crioulas e promover o manejo de animais no Centro de Formação Maria Olinda, em São Mateus, norte do Estado.

O projeto é apoiado pelo Instituto Capixaba de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Espírito Santo, e beneficiará dez assentamentos de São Mateus, Conceição da Barra e Pedro Canário. Diretamente serão beneficiadas ainda 40 famílias e, indiretamente, centenas de sem terras poderão contar com as oficinas e capacitações técnicas que serão promovidas a partir do manejo da agrobiodiversidade.

A idéia, segundo o técnico e engenheiro agrônomo Roberto Toshio, do MST, é plantar desde milho, feijão e mandioca, até leguminosas que servem de material orgânico, ou também o chamado de adubação verde, que melhora o solo.

"Queremos promover o manejo saudável, além de incentivar a recuperação das nascentes da região. Além do alimento plantaremos ainda espécies da mata atlântica como a boleira, o jacarandá e o jequitibá", disse Roberto.

A ação auxiliará na preservação da variedade de sementes crioulas como espécies tradicionais. Estas são normalmente cultivadas por agricultores familiares, comunidades indígenas e quilombolas.

Segundo Roberto, as espécies modificadas ainda serão estudadas por coordenadores e técnicos dos Centros Irradiadores do Manejo da Agrobiodiversidade (Cimas), que é promovido em nove estados do País. São eles: Goiás, Maranhão, Espírito Santo, Alagoas, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo.

Os Cimas foram criados a partir de propostas da comunidade. Entre suas atividades estão o resgate de sementes mantidas pelos agricultores, incentivo às técnicas de agrobiologia que não utilizam agrotóxicos, capacitação e formação de agentes comunitários.

   
Sementes crioulas

A semente crioula atende a um dos princípios básicos da agroecologia, que é o de desenvolver plantas nativas adaptadas às condições locais da propriedade, capazes de tolerar variações ambientais e ataque de organismos prejudiciais.

Outro aspecto importante é a maior autonomia do agricultor, que pode coletar as sementes destas variedades e replantá-las no ano seguinte, adquirindo maior independência do mercado de insumos e gerando um material que com toda sua variabilidade genética se torna cada vez mais vigoroso e adaptado ao seu tipo de solo e clima.

Em alguns países da América Latina, proteger a semente crioula é uma atividade quase mística, onde geralmente a mulher tem um papel fundamental.