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Foto: Divulgação
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Carlos Eduardo Guimarães é o colega de profissão Caê Guimarães. Seu último trabalho aconteceu no Caderno Dois, do jornal A Gazeta. Há menos de 15 dias, assumiu a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Aracruz. Recentemente, foi selecionado pela Secult com o seu livro de poemas "Quando o dia nasce sujo".
Ele é carioca, nasceu em 1970, na Lapa. Em 1974, mudou para o Espírito Santo e viveu algumas temporadas em Ouro Preto e Belo Horizonte. Suas incursões pelos livros são de várias formas. Como escritor, publicou "Por Baixo da Pele Fria" (poesia/1997) e Entalhe Final" (conto/1999), ambos por Massao Ohno Editor.
Também participou com poemas em revistas e coletâneas do Espírito Santo e de outros estados. Como editor, criou em 2004 a Ysayama Guimarães Editores. Mas, antes, havia participado da Banda II e escrito roteiros de cinema e vídeo. Alguns poemas foram trabalhados pelo cineasta Luiz Tadeu Teixeira no curta-metragem "O Ciclo da Paixão" (2000).
Nesta entrevista, Carlos Eduardo Guimarães fala de um dos seus pratos preferidos: a poesia entranhada na sua vida. Também de contos, do processo de criação e de várias outras metáforas presentes na sua caminhada, que se dá ao luxo (ou ao trabalho?) de dissecar a linguagem.
Confira a entrevista
"Quando o dia nasce sujo"... Por que o título?
O livro foi construído em um período em que os dias geralmente nasciam sujos (rsrsrs). Eu estava fora do Espírito Santo, vivi em Ouro Preto e Belo Horizonte por cinco anos. Foi um tempo de experiências pessoais e estéticas muito ricas, mas também de momentos duros, solitários, em que eu não me habitei com muita satisfação, como de resto é a vida e sua gangorra incoerente, onde quer que estejamos. A sensação de um dia que nasce sujo não é maniqueísta sob nenhuma hipótese, o dia sujo é povoado por outro tipo de beleza, que não é a do descanso e do conforto pessoal, mas a da tormenta. Por ter vivido com uma freqüência muito maior do que a desejada no olho desse furacão, e por ter me equilibrado nas cordas tensas de abismos pessoais, o título surgiu de forma natural, mais que nada para retratar o período em que escrevi / vivi o que está no livro.
O que significa a poesia na sua vida?
Uma das lembranças mais antigas e mais fortes que tenho vem da minha infância, quando mudamos do Rio de Janeiro para Vila Velha. Meu pai costumava me pegar pela mão para tomar banho de mar na Praia da Costa. Em dado momento ele me soltava, sempre por perto, claro, para que eu me habituasse com o movimento da água do mar. Esta é uma tradição familiar, meu avô paterno enfrentava o mar bravio de Saquarema como quem entra em um lago, e naquele tempo a Praia da Costa tinha a arrebentação, Itapoã e Itaparica eram praias de mar revolto. Certo dia, ao chegar em casa e tomar banho no chuveiro do quintal para tirar a areia, fechei os olhos e me imaginei no fundo do mar afundando com destroços ao meu redor. Esta é uma das minhas lembranças mais antigas, e acho que foi a primeira metáfora que criei. Ainda hoje tento explicar e reviver o naufrágio que continua a me assombrar. Poesia é isso. Mas não é só isso! Qualquer "leitmotiv" ou inspiração precisa de estudo, leitura, experimentações, afinal trabalhamos com a linguagem. Poesia significa para mim uma tentativa de explicar o assombramento, mas também é um ofício que requer muito esforço e concentração.
O poeta é um fingidor, como diria Pessoa?
É. Mas é também o cara que carrega coisas inúteis nos bolsos. Como também é o cara que ouve estrelas. Ou ainda, é aquele que tem coragem antes dos outros, por saber que sem coragem a vida não merece ser vivida. O poeta é, desde tempos imemoriais, e continuará sendo enquanto existirmos como espécie, o companheiro do absurdo, o cara que sente o perfume da flor no lixo. Mas, insisto novamente, ele também é o ourives, o lapidador da palavra, o arquiteto do verbo. Ao menos deveria ser. Poetas também têm que ser algo que os faça sobreviver, não é? Desde que fomos expulsos da República por Platão nos ocupamos com algo além da poesia, salvo raras exceções. Eu sou jornalista, o Sodré e o Orlando Lopes são professores universitários, o Oscar Gama é psicanalista, o Waldo Motta faz oficinas e consultas sobre cabala, o Sérgio Blank também faz oficinas literárias, e por aí vai. Como disse Otávio Paz, "todo poeta tem uma ocupação que o redime, mesmo que esta varie da diplomacia ao crime".
Você também já publicou contos. Há alguma obra do gênero ainda em gestação?
Publiquei um conto em um livro pequeno pelo qual tenho enorme carinho, o "Entalhe Final". E outro conto, "Meu Afeto no Teu Gesto", no jornal "O Inconfidente", em Ouro Preto. Tenho uns 15 contos prontos, mas eles ainda não me convenceram, sempre que os releio é como se me fossem bonecos inacabados. Falta uma perna aqui, uma cabeça ali. Há uns seis ou sete anos tentei escrever prosa com mais freqüência, quero dizer, tentei desenvolver uma linguagem, mas o tempo mostrou, ao menos até agora, que a minha praia, com direito à metáfora do naufrágio, é mesmo a poesia.
Quais as suas referências poéticas no Brasil e no mundo? Admite ter sido influenciado por algum autor - ou isso não existe?
Existem aqueles autores que nos afetam e fazem parte do nosso arquissema, do nosso código ancestral, que colaboram como fonte de inspiração, mas, principalmente, como fonte de pesquisa da linguagem. Insisto na questão da linguagem porque escrever poemas tendeu, com o passar dos anos (décadas? séculos?) a ser a manifestação artística que mais se afasta da poesia. Há gente regurgitando poemas que se resumem ao auto-referencial gratuito, expressão que uso para definir o tatibitati incômodo que afasta os leitores de poetas que têm uma proposta filosófica e estética. Então, sob essa prerrogativa, tenho grandes afinidades com coisas de Mário Faustino, Oscar Gama Filho, Douglas Salomão, Orlando Lopes, Murilo Mendes, Torquato Neto e algo dos concretos. Fora do Brasil, os russos modernistas, Vladimir Maiakovski e Vélimir Khlébnikov à frente, mas também e. e. cummings, Ezra Pound, Hans-Magnus Ezensberger e Boris Vian. Os dois últimos com mais força nos últimos anos. Como disse, são afinidades. Se elas reflexionam, dialogam ou espelham meu trabalho como influência, talvez caiba à crítica identificar. Gosto desses caras como poeta e como leitor. A obra deles me compôs como homem, mas não necessariamente como poeta.
Como você define o processo de criação poética?
Como a edição de um filme. Poesia é emoção, mas também é cosa mentale, trabalho, estudo. Aquele velho papo da inspiração e da transpiração. Filmo uma quantidade enorme de cenas nos cenários mais variados, o cotidiano, a imaginação, os sonhos, o passado....Depois revelo, levo os rolos para a moviola, a ilha de edição da minha cabeça, e faço cortes, elipses, fusões, fades, toda sorte de recurso que, mais uma vez, insisto, insistirei sempre, constituem-se em um trabalho com a linguagem, com a construção verbal, com os recursos que estão ao meu alcance em função das minhas vivências, minhas leituras, minhas loucuras.
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