Os eucaliptos e a fome




Faz sentido o temor dos pequenos agricultores capixabas quanto aos riscos de um agravamento dos problemas sociais no Estado em decorrência da modernização das três fábricas da Aracruz Celulose e de novos plantios de eucalipto. Pelo que informou a empresa, os novos plantios poderão chegar a 100 mil hectares.

É uma expansão considerável da monocultura que tantos problemas já causou ao Estado e que decorre do crescimento da demanda mundial de celulose. O poder público parece ignorar que tais plantios são prejudiciais à sociedade, como lembrou o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) em seu alerta.

Com os eucaliptais, o Estado perde extensas áreas de produção de alimentos para a monocultura da espécie exótica. É como se estivéssemos vivendo num país onde não há fome nem miséria.

As obras vão começar ainda no início no primeiro semestre deste ano e, diz a empresa, vão gerar 1.880 empregos diretos, dos quais cerca de 80% de mão-de-obra local. Depois da conclusão do projeto serão gerados cerca de 200 empregos diretos.

Pergunta-se: compensa tanto sacrifício em troca de 200 empregos ao final das obras? O MPA vê "muita conversa fiada" quando se fala em plantios de eucalipto e aumento da produção da celulose. Revela que 30% do papel produzido no mundo bastam para as necessidades da população, sem contar a possibilidade de reciclagem.

Na verdade, vêm sendo sistematicamente desconsiderados os impactos sociais, ambientais e econômicos que esses projetos promovem. "Vamos ver quanto de recursos públicos serão aplicados nesses projetos. Mas não há dinheiro para a reforma agrária, que conteria a migração da cidade para ao campo; quer permitiria a geração de emprego e renda no campo; e que produziria comida", diz Sérgio Conti, líder do MPA.

Ele tem razão: no Espírito Santo a Aracruz Celulose quer plantar pelo menos mais 100 mil hectares de eucalipto, além dos aproximadamente 220 mil hectares que já tem. A espécie exótica ocupa cerca de 250 mil hectares de terras boas para a agricultura no Estado.

Para Conti, as empresas de produção da celulose têm como meta aumentar o plantio de eucalipto de 5 milhões para 11 milhões de hectares no Brasil. Entre 2009 e 2015, as empresas de celulose e papel querem construir seis novas fábricas.

Deverão surgir uma nova fábrica da Cenibra, em Minas Gerais; uma unidade da Bahia Sul, do grupo Suzano, em Mucuri, na Bahia; duplicação da Veracel, Bahia; fábrica da Stora Enso (sócia da Aracruz Celulose na Veracel), no Rio Grande do Sul; Votorantim (São Paulo), e a quarta fábrica da Aracruz Celulose (que deverá ser construída no Espírito Santo ou na Bahia).

O leitor já imaginou o estrondo social provocado pelo impacto dessa expansão? É coisa muito séria mesmo.