Vitória (ES), edição de 11 de janeiro de 2006
 

Agrotóxico se mantém como o maior
responsável por intoxicações no ES


Flávia Bernardes


Nesta quarta-feira (11), Dia do Combate ao Uso do Agrotóxico, os venenos se confirmam como a maior causa de intoxicação no Espírito Santo, e mantêm o Estado como o terceiro no consumo por pessoa. No último balanço feito pelo Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo (Toxcen) - durante todo o ano de 2004 - 1100 capixabas foram intoxicados por agrotóxicos.

Os dados apurados pelo Toxcen foram multiplicados por 50, como fora sugerido pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta aponta a correção como necessária considerando a subnotificação das contaminações e mortes pelos venenos agrícolas. Em 2004, o Toxcen registrou 822 intoxicações por venenos agrícolas, com 22 mortes (14,6%).

A estatística de 2005 ainda não foi finalizada, mas, segundo informações do Toxcen, as notificações sobre intoxicações gerais chegaram a 7.800. Somente no primeiro semestre foram registradas 400 notificações de intoxicações por venenos agrícolas.

Essas intoxicações podem causar desde uma leve dor de cabeça a até graves danos em órgãos vitais como pulmão e fígado. Os agrotóxicos podem ainda deixar o ser humano incapacitado, causar mutações em gestantes, entre outros graves problemas de saúde.

Entre as intoxicações mais comuns, a que mais mata é o "chumbinho". Este é produzido a partir do Temick, um veneno agrícola produzido e comercializado livremente no País. O veneno é usado para matar ratos.

Quanto aos agrotóxicos usados nos alimentos, o perigo está principalmente na falta de informação dos agricultores que utilizam o produto e nos alimentos que vão para a mesa do consumidor. No Estado não há critérios para a aplicação dos agrotóxicos e por isso a segurança dos trabalhadores fica comprometida.

Segundo o engenheiro agrônomo e fitopalogista Celson Rodrigues, a falta de critérios para o uso de venenos, e ainda a falta de um monitoramento sistêmico, estão entre os principais problemas no combate às intoxicações causadas por agrotóxicos.

"Há falta de informação do agricultor. Eles não estão preparados para lidar com estes produtos, que na verdade são venenos. Aqui não há cursos e eles acabam errando na dosagem, na escolha do produto, na hora de avaliar se aquele meio ambiente é propício pra recebe-lo, entre outros", explica o professor.

Ele ressaltou ainda que o uso é feito de modo inadequado uma vez que é utilizado próximo a mananciais, residências e animais silvestres, além de destruir o solo.

Para proteger os consumidores de alimentos contaminados, está em andamento no Estado e em mais 15 regiões o Programa Nacional de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), que faz a coleta para a análise de alimentos encontrados nos comércios capixabas classificando-os como próprios ou impróprios para a alimentação, de acordo com o nível de resíduos nos alimentos considerável tolerável para o consumo diário do ser humano.

O Para deverá finalizar sua a análise iniciada em 2005 até fevereiro de 2006. Ainda assim, o programa não é suficiente, segundo afirmou Celson. Para ele, o sistema não faz um monitoramento sistemático e abrange um maior número de alimentos, para garantir a segurança do consumidor.

Para Maria Júlia Dam, que faz parte da equipe do Para, a maior dificuldade do programa é a rastreabilidade dos alimentos, ou seja, descobrir de onde vem o alimento das prateleiras dos comércios. "Fazemos a coleta nos supermercados, mas às vezes o alimento de um produtor estava no final, já jogaram o de outro em cima e aí não só há a mistura do alimento como dos resíduos, dificultando o trabalho", ressaltou.

Em 2004, alimentos escolhidos a partir de estudos sobre o consumo da população capixaba como laranja, maça, tomate, banana prata, cenoura, morango, alface, mamão e batata inglesa, foram avaliados. Destes foram encontradas índices de resíduos impróprios - de acordo com as leis da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ministério da Saúde - para consumo em tomates, cenouras, morangos, alfaces e batatas inglesas.

Com isso, fica difícil também para o comércio saber de quem comprou ou não alimentos impróprios para o consumo, prejudicando ainda mais o consumidor.
Celson informa que a contaminação através do alimento depende da exposição deste ao produto e também da quantidade consumida.

O nível de tolerância/dia de resíduos de agrotóxicos no ser humano é estipulado através de testes do Ministério da Saúde e Anvisa. Estes são testados em camundongos e calculados proporcionalmente para as tolerância/dia de um ser humano de 60 quilos. Não há estudos que garantam que tais resíduos acumulados com o passar dos anos não causem danos graves à saúde.

Para os consumidores, o professor indica que em primeiro lugar procurem consumir produtos sem a utilização de agrotóxico. Em segundo, que não julguem o produto pela aparência, já que os mais vistosos apontam quase sempre o uso de agrotóxico, e em terceiro que o produto seja lavado intensamente na água, com uma pequena quantidade de água sanitária ou substâncias que ajudam a remover o agrotóxico.

Mesmo assim o professor alerta: há agrotóxicos sistemáticos e nestes não adianta remover a casca dos alimentos ou apenas lavar, já que o agrotóxico, devido a má utilização, pode estar em grande concentração dentro do alimento ou na polpa da fruta.

Os agrotóxicos podem provocar impotência sexual, frigidez, doenças genéticas, doenças que deprimem o sistema imunológico e câncer, entre outras doenças. Ao todo, os venenos usados na produção de alimentos intoxicam 500 mil brasileiros por ano, e 10 mil trabalhadores morrem anualmente no Brasil contaminados pelos agrotóxicos.

São gastos pelo País cerca de R$ 10 bilhões com a compra destes venenos agrícolas. O Brasil é o quarto consumidor mundial de agrotóxicos e maior da América Latina. No Espírito Santo é crescente e vigoroso o movimento de produção orgânica. Estes alimentos são livres de contaminação, não prejudicam o meio ambiente e podem ser encontrados em diversos pontos de comércio.

   
Temik

A Bayer CropScience declarou que o Temik não é utilizado para a produção do veneno "chumbinho", e sim se refere a um defensivo agrícola registrado no Ministério da Agricultura.

Disse ainda que o produto não é veneno de rato e nem um produto ilegal e que só é comercializado perante receituário emitido por engenheiro agrônomo.