Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Bildungsanimen



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas


No ocidente, o termo anime costuma ser utilizada para se referir tanto a estética particular quanto às séries de animação japonesas. Originalmente, entretanto, a palavra serve para qualquer obra audiovisual produzida com técnicas de animação - vídeos, filmes e séries para TV.

Ora, ainda que anime - latu sensu - não possa ser considerado um gênero, a quase totalidade das séries animadas produzidas no Japão constitui um, uma vez que obedece a expedientes narrativos e de produção comuns. Um anime de ficção científica, outro de aventura e mesmo um terceiro para garotinhas tem mais a ver entre si do que com desenhos animados ocidentais de mesma temática.

Apesar de empregar técnicas 2D full-motion importadas diretamente dos EUA, o anime é completamente diferente das produções americanas. E essas diferenças não se limitam ao estilo do traço, que pode ser facilmente imitado deste lado do oceano pacífico.

Os saturday morning cartoons, sejam os clássicos da Hanna-Barbera ou os recentes sucessos da Nickelodeon, tem uma função bem específica; se prestam a vinte minutos de diversão despretensiosa e nada mais.

Suas personagens são simples e tipificadas, e têm identidades reiteradas a cada episódio. Mesmo que passem por experiências transformadoras (acidentes automobilísticos, abduções alienígenas, etc), estarão recuperadas da próxima vez, como se nada tivesse acontecido. Um ícone maior dessa inconseqüência é Kenny, da série South Park, que morre a todo episódio e reaparece vivo no seguinte.

Nos desenhos animados ocidentais, cada episódio encerra uma história em si, e não há um drama que perpasse todos eles. Por isso, as personagens estão fadadas a viver numa bolha de eterno êxtase: jamais sofrerão seqüelas, mas tampouco poderão evoluir.

O anime se organiza de forma diferente. Mais do que uma categoria ou assunto específico, o que define a série de anime como tal é sua organização em temporadas semestrais, como uma série televisiva. Por maior que seja a independência de cada episódio, ele sempre está submetido à trama da temporada.

Ao contrário dos cartoons, os animes possuem início e fim, e tanto o cenário quanto as personagens se transformam enquanto caminham de um para outro. Normalmente, essas transformações são drásticas: a realidade atinge um novo patamar de existência; o mundo é destruído - dois acontecimentos que podem parecer excepcionais, mas são especialmente recorrentes.

Nesse ponto, encontramos outra particularidade das séries de anime, que as diferenciam das demais formas de ficção seriada: tudo aquilo que retratam são eventos notáveis, marcos históricos irreversíveis - senão para toda a humanidade, pelo menos para os protagonistas - mas normalmente para ambos, de maneira recíproca.

Assim como a estruturação em temporadas, o tema da transformação do mundo não depende de gênero. Em Dragon Ball, o que está em jogo é a posse dos artefatos mais poderosos do universo, capazes de conceder qualquer desejo. Serial Experiments Lain retrata a fusão progressiva entre a realidade e a rede mundial de computadores. Ao final de Neon Genesis Evangelion (Gainax, 1995), acontece o próprio apocalipse programado, e a humanidade se dilui em caldo primordial.

À primeira vista, o tema da transformação do mundo pode parecer um mero desdobramento da estética Hibakusha, que diz respeito à imaginação da bomba nuclear e de seu efeito devastador na sociedade japonesa. Nos animes, entretanto, é impossível dissociá-lo da transformação das próprias personagens.

No anime, as transformações do mundo servem para ilustrar (ao mesmo tempo em que possibilitam) o amadurecimento da personagem. Isso é reforçado pelo fato de os animes possuírem como protagonistas crianças ou adolescentes. Nenhum dos exemplos até agora citados possui mais que 16 anos. Portanto, as séries de anime não estão tão próximas do épico apocalíptico quando do Bildungsroman.

Bildungsroman, também chamado de romance de formação, é um gênero inaugurado pelo livro Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister (Goethe, 1795). Grosso modo, obras dessa estirpe narram o desenvolvimento interior da personagem a partir de seu confronto com acontecimentos do mundo. Elas celebram o indivíduo frente aos constrangimentos da sociedade.

O foco de Dragon Ball não está tanto no destino das Esferas do Dragão quanto no amadurecimento do jovem Son Goku, que descobre pertencer à raça alienígena dos Saiyajin. Também Iwakura Lain atravessa uma jornada de auto-revelação: ela termina a série como demiurge onipresente do ciberespaço. De Evangelion, nem se fala. Basta dizer que os dois últimos episódios (que acontecem depois do fim do mundo) se passam unicamente na cabeça de Ikari Shinji, o personagem principal.

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