Vitória (ES), edição de 13 de janeiro de 2006    
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Os contrapontos poéticos da morte



Cristina Moura



  
Foto: Waldir Guerrieri
  

Ele rabisca enquanto escreve. Os poemas vão surgindo, brotando como uma construção sonora sem previsão de entalhes ou personagens. Com essa característica, que se intercala com tantas outras, por vezes até mais íntimas do que seria preciso dizer nesta matéria, Paulo Roberto Sodré produziu "Senhor Branco ou o indesejável das gentes", uma das obras selecionadas pela Secult.

O título, explica o autor, é uma referência à "Consoada", de Manuel Bandeira, poema de "Opus 10", em que o poeta aguarda a morte: "Quando a Indesejada das gentes chegar/ (Não sei se dura ou caroável),/ Talvez eu tenha medo./ Talvez sorria, ou diga:/ - Alô, iniludível!)."

Paulo diz que em sua obra poética procura pensar a morte. Quem seria essa morte, então? Para ele, um exercício desvinculando duas imagens: a da feminilidade (a Morte) com a da crueldade (a que horroriza).

"Assim, em vez de mulher cadavérica vestida de negro apoiada numa foice, um homem suave vestido de claro; o epíteto 'indesejável das gentes' seria a oposição do senso comum, das gentes, a essa representação menos corriqueira, 'Senhor Branco'", relatou.

O livro é dividido em três partes: "Percurso de sombra e frescor" (sobre a falta de percepção do homem em relação à morte, por temê-la); "Percurso de sombra e arrepio" (sobre os momentos quando inevitavelmente o homem toma consciência da morte), e "Percurso de sombra e corte" (sobre a experiência mais próxima e individual da morte). Segundo o autor, todas as partes são seguidas de um "Contraponto", em que os poemas tratam de amor sem chances.

A poesia basta

Paulo Roberto afirmou que não percebeu quando se interessou por literatura e, especialmente pelos poemas. "Quando dei por mim, lá estavam eles, exigindo atenção, dedicação e muito exercício", disse. Outros contos já se atravessaram pelo imaginário e pelo fazer literário, como o conto. Alguns do gênero foram publicados na revista Cuca (Revista de Cultura Capixaba). Uma peça teatral também, mas que não chegou a ser publicada. "Mas como bem me aconselhou Reinaldo Santos Neves, meu negócio é poesia. E basta", esclareceu.

Para o autor, nada é feito sem influência e sem sua angústia. "Bilac, Cecília, Rosa, Dylan Thomas, Lorca, Bashô, Pessoa: são autores que freqüentam tanto o porão como o sótão do meu trabalho. Mas devo dizer que, quando escrevo, desenho também. Por isso os trabalhos de Boticelli, Monet, Modigliani, Carlos Scliar e Attílio Colnago também atravessam os versos que rabisco."

Professor da Ufes

Paulo Roberto é professor de Literatura Portuguesa, do Departamento de Letras da Ufes. Publicar não é novidade para ele, que escreve poesia desde 1984, quando a Fundação Ceciliano Abel de Almeida lançou "Interiores", coletânea prefaciada por Oscar Gama Filho. Na época, Paulo fazia graduação em Letras-Inglês, na mesma Universidade.

Em 1989, a fundação publicou "Lhecídio: Gravuras de Sherazade na Penúltima Noite", um poema-romance sobre um escritor que hesita entre vivenciar uma aventura amorosa ou transformá-la em arte. Em 1992, foi premiado no concurso promovido pelo Departamento Estadual de Cultura (DEC-ES) publicou "Dos Olhos, das Mãos, dos Dentes", poemas homoeróticos divididos em três partes: o amor vivenciado idealmente, o amor exercitado solitariamente e o amor experimentado com o outro.

"De Ulisses a Telêmacos e Outras Epístolas", tratando da diferença entre pai e filho, veio seis anos depois, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Mas o autor também se dedicou à literatura infanto-juvenil. Foram dois de ilustrações para textos de Francisco Aurélio Ribeiro: "Era Uma Vez Uma Chave" (1984) e "Leve Como a Folha" (1985), publicados pela editora mineira Miguilim.

Em 1986, Paulo havia publicado "Ominho", pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida. O autor também assina as ilustrações da obra. Como resultado da sua dissertação de mestrado, defendida pela USP, Paulo Roberto publicou o ensaio "Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandes Torneol". Na mesma universidade, também concluiu o doutoramento, em 2003, sobre poemas da Península Ibérica do século XIII (editada pela Íbis, de Cotia/São Paulo, em 1998).

Leia o poema construído em 2004 e que originou a idéia do livro, selecionado pela Secretaria de Estado da Cultura em 2005:

Nestes páramos
de sílabas,
darei a ti um rosto,
sim, de homem,

pois se uma mulher deu-me
o que se fez vida,
é de sorte que um homem
ma recolha.

Saiba mais!

Clique aqui e leia a coluna de Literatura sobre os selecionados pelo Edital da Secult-ES

Clique aqui e leia sobre Anne Ventura, uma das selecionadas

Clique aqui e confira entrevista com Douglas Salomão, também selecionado pelo edital

Clique aqui e leia entrevista com Caê Guimarães, outro selecionado


 

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