Seis anos após adentrar galhardamente - e contra as previsões bíblicas - o terceiro milênio, a humanidade continua aportada na Idade Média, algumas pessoas até mesmo na Idade da Pedra. O lento e corrosivo passar dos séculos mudou o mundo mas não mudou o homem.
As guerras de conquistas que moldaram a geografia global continuam devastando e degradando vidas, hoje com nomes mais pomposos, como defesa da liberdade e dos direitos humanos, em prol da democracia e da fé cristã, etc. Também as cruzadas, a inquisição, o imperialismo, o colonialismo, o mercantilismo... a lista é longa, paro por falta de espaço.
Resumindo a novela, o homem que hoje não se desgruda do celular e não dorme antes de checar seus e-mails, mudou pouco desde o tempo das cavernas. E fica bem usar a expressão machista para indicar domínio; afinal, apesar de todos os movimentos feministas, o macho da espécie ainda controla o mundo, a política, a economia, a sociedade, a família.
Se Hillary Clinton se eleger presidente dos States, vai acabar com a guerra no Iraque? Fotos de presos muçulmanos sendo torturados por soldados americanos mostravam mulheres se lambuzando no melado da prepotência. Indira Ghandi não mudou a política da Índia em relação ao Paquistão, e não ficou famosa como pacifista.
A ciência está desvendando os segredos do corpo humano, mas pouco sabe sobre a mente arrogante que domina esse corpo. O homem que se considera o senhor do universo continua disseminando a fome, a miséria, a corrupção, o desemprego. O rico continua explorando o pobre e o poderoso continua dominando o fraco, seja no âmbito individual ou a nível de nações e governos.
A grande questão existencial então seria, somos intrinsecamente bons, com as exceções dominando o mundo, ou somos todos maus, mas a maioria não tem oportunidade de manifestar seus instintos dominadores e destrutivos? Quem somos, de fato, quando ninguém está olhando?
A honestidade é apenas medo das conseqüências, ou como queria Kant, vale por si mesma, sem esperar recompensas e sem necessidade de justificativas? Talvez o senhor do novo milênio use a tecnologia e o conhecimento para ter uma vida mais longa, mais saudável, mais confortável, ganhar mais dinheiro e possuir mais bens.
Mas quando se apossa de algum título ilusório, como rei, presidente, general, patrão, chefe, ou até mesmo síndico, a transformação ocorre, e muito cidadão honesto e cumpridor de seus deveres vira monstro.
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