Vitória (ES), edição de 13 de janeiro de 2006
 

Aracruz Celulose move 28 processos
para tentar calar Século Diário


Da Redação


Estão marcadas as primeiras audiências dos processos movidos pela Aracruz Celulose com o objetivo de calar Século Diário quanto às denúncias de crimes ambientais trazidos ao conhecimento do jornal pelas vítimas. A empresa, que tomou e explora terras de quilombolas, índios e pequenos proprietários, além de se apropriar de terras devolutas, que são públicas, move 28 processos contra jornalistas de Século Diário.

O advogado dos jornalistas Rogério Medeiros, diretor de Século Diário, e Flávia Bernardes e Ubervalter Coimbra, repórteres, é Waldir Toniato. O advogado informou que dos processos um foi arquivado e dois rejeitados pela Justiça. A empresa recorreu da rejeição de um dos pedidos e o advogado dos jornalistas já apresentou contra razões no Tribunal de Justiça à posição da Aracruz Celulose.

Waldir Toniato e os jornalistas foram intimados a comparecer a quatro audiências. A primeira delas, de conciliação e julgamento, será na 6ª Vara Criminal de Vitória, no dia 13 de fevereiro, às 15h. O processo visa a calar o jornalista Ubervalter Coimbra, autor de reportagens apontando as mazelas sociais, ambientais e econômicas promovidas pela Aracruz Celulose contra o Espírito Santo, todas fartamente documentadas.

Neste mesmo dia, às 15h30, haverá nova audiência, de um outro processo contra o jornalista. O juiz titular da 6ª Vara Criminal é Willian Silva.

Já Ubervalter Coimbra e Rogério Medeiros foram intimados a participar de audiência, também de conciliação e julgamento, na 9ª Vara Criminal de Vitória, no dia 16 de março, às 13h30.

A repórter Flávia Bernardes e Rogério Medeiros estão intimados para audiência naquela Vara no dia 20 de março próximo, às 13h30. Segundo informou a assessoria de comunicação do Tribunal de Justiça, o juiz titular da 9ª Vara Criminal é Telêmaco Antunes.

Os jornalistas denunciaram a Aracruz Celulose por degradar o meio ambiente e afetar a saúde das pessoas, e a empresa se sentiu caluniada e difamada, recorrendo à Justiça. Não houve nenhum destes crimes, argumenta o advogado Waldir Toniato.

O advogado entende que a Aracruz Celulose está congestionando a Justiça com os processos, todos improcedentes. Mas destaca que os processos judiciais criam oportunidade para que seja discutida, em profundidade, a atuação da empresa no Estado e sua ação negativa sobre as comunidades tradicionais, como a dos índios, quilombolas e pequenos proprietários rurais.

Considera o advogado que Século Diário cumpre importante papel na sociedade, apontando problemas e soluções para as populações tradicionais, ouvindo suas lideranças e outras fontes de informação. Importantes também são as análises sobre as questões ambientais do Espírito Santo.

O advogado lembra que o Supremo Tribunal Federal (ST), em agosto do ano passado, arquivou notícia-crime contra um jornalista da revista "Veja". Na decisão , o ministro Celso de Mello advertiu que "a Constituição da República revelou hostilidade extrema a quaisquer práticas estatais tendentes a restringir ou reprimir o legítimo exercício da liberdade de expressão e de comunicação de idéias e de pensamento". Para o ministro, a crítica jornalística, por mais dura que seja, é um direito constitucional e legítimo, sobrepondo-se a eventuais suscetibilidades dos detentores do poder, como informa o site do Supremo.

Para Waldir Toniato, os processos da Aracruz Celulose contra os jornalistas de Século Diário é uma estratégia de defesa. Afirma: "A melhor defesa é o ataque. A empresa faz vigorosa campanha na mídia. Mas como não tem os resultados que espera e os danos ambientais e sociais que provoca são denunciados por Século Diário, a empresa busca intimidar os jornalistas. Não vai conseguir, pois as denúncias do jornal são baseadas em fatos". Ele conclui que prova disso é a rejeição de alguns dos processos.

   
Um rosário de crimes, lucros bilionários

A Aracruz Celulose responde a vários processos na Justiça Estadual e Federal por seus crimes ambientais. Em um deles, na Justiça Federal, foi obrigada a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Não cumpriu o TAC, e ainda mentiu ao Ministério Público Federal (MPF), informando tê-lo cumprido. A fraude foi descoberta por denúncia dos ambientalistas e o MPF reconsiderou sua decisão de arquivar o processo, como foi pedido pela empresa.

Responde, ainda, pelo crime de desviar o Rio Doce para o rio Riacho, em conluio com a prefeitura de Aracruz. Como ampliará suas fábricas a partir de 2006, a Aracruz Celulose precisa continuar sendo abastecida pelo Rio Doce, o que levou a prefeitura do município - usada como testa-de-ferro da empresa nesse caso - a pedir a renovação da licença ilegal obtida pela administração do prefeito anterior, Luiz Carlos Cacá Gonçalves (PSDB), que está sendo processo pelo crime.

Dos índios, a Aracruz Celulose tomou cerca de 40 mil hectares de terras no Espírito Santo. Estudos da Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmam que a empresa se apropriou de 18.070 hectares de terras dos índios capixabas. Desses, os índios retomaram no ano passado 11.009 hectares apropriados ilegalmente pela empresa, e lutam por sua demarcação oficial.

Já dos quilombolas, donos de praticamente a totalidade do antigo território de Sapê do Norte, formado pelos municípios de Conceição da Barra e São Mateus, a Aracruz Celulose tomou vastas extensões de terras. Um grupo de trabalho que estudou a situação fundiária do Córrego do Angelim para a Fundação Palmares, do governo federal, confirmou a ocupação de terras dos quilombolas pela Aracruz Celulose e outros grupos empresariais.

Só no Córrego do Angelim a área a que os quilombolas têm direito é de "aproximadamente 12.945 hectares e um perímetro de 81 quilômetros. Para a demarcação da terra é necessário que os limites sejam identificados com aparelhos topográficos e geodésicos precisos que permitam o valor exato da área e do perímetro", afirmam os especialistas no seu relatório.

Outros estudos, realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para o Incra, confirmam a ocupação de outras grandes áreas dos quilombolas pela empresa. E novas pesquisas estão sendo realizadas nesta região.

Um rosário de crimes, mas lucros bilionários. Nesta quinta-feira (12), a Aracruz Celulose anunciou os resultados de 2005. Bateu seus próprios recordes de produção e vendas: lucro líquido de R$ 1,2 bilhão, ou "R$ 1,13 por ação", segundo informa.

A empresa se ufana de ser "líder mundial na produção de celulose de eucalipto e uma das maiores exportadoras do Brasil". Em 2005, inaugurou a fábrica Veracel, onde possui 50% de participação acionária, em joint venture com a sueco-finlandesa Stora Enso. Com isso "aumentou sua capacidade produtiva para cerca de 3 milhões de toneladas de celulose branqueada de eucalipto ao ano".

E cresce mais, em 2006: investirá US$ 200 milhões na modernização das fábricas no Espírito Santo, permitindo um aumento da capacidade produtiva das fabricas de Barra do Riacho, em Aracruz, de 2,08 milhões de toneladas/ano para 2,33 milhões de toneladas/ano.

A empresa informou que "quebrou recordes de produção e de vendas em 2005: respectivamente 2,8 milhões de toneladas e 2,6 milhões de toneladas de celulose de eucalipto - 12% e 6% acima do ano anterior. Neste balanço já está incluída a parcela produzida pela Veracel".

As operações florestais da empresa prejudicam os estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A empresa diz ter 252 mil hectares de plantios de eucalipto, além de 133 mil hectares de terras não plantadas com a espécie exótica. Assume que "estimula o plantio de eucalipto por terceiros", e para isso montou o chamado Programa Produtor Florestal que, no início de 2005, já havia contratado o plantio de 71 mil hectares, nos estados onde opera.

O controle acionário da Aracruz é exercido pelos grupos Lorentzen (norueguês), Safra e Votorantim (28% do capital votante cada) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com 12,5% das ações.

   


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