Eu já joguei /role playing games/. Aqueles de mesa, mesmo, com dados esquisitíssimos, miniaturas de chumbo tóxico e muitas folhas de papel. Tive que parar por causa da Vida Adulta, bem no ano que a editora Wizards of the Coast lançou a terceira edição do clássico *Dungeons & Dragons*. Era 2000, e não poderia haver momento melhor: o milênio
virara sem nenhum apocalipse, esgotando o interesse popular pela nova era, e a presença de *O Senhor dos Anéis *no cinema repovoava as imaginações com feiticeiros e castelos.
Eu até comprei, li os manuais, mas nunca cheguei a jogar nenhuma partida. Acompanhei de longe as mudanças que ela provocou: de olho nos jogadores de videogames como *Ultima* e *Baldur's Gate*, a tão aguardada edição trazia alterações maciças nas regras, que tornavam o RPG mais ágil e elegante, mais próximo de suas versões eletrônicas. Mas essa não era a única característica que ela tomava emprestado da informática: a partir de então, seu sistema de regras também foi liberado para quem quisesse usá-lo comercialmente para fazer seu próprio jogo - uma espécie de Linux do /role playing/.
Essa manobra fortaleceu o mercado editorial de uma forma impressionante. Como não precisava se preocupar com o mecanismo de jogo e podia se concentrar em desenvolver as ambientações, muita gente tirou suas aventuras da gaveta e resolveu publicá-las. As sessões de RPG das livrarias ganharam mais de uma prateleira, recheadas com material brasileiro.
Depois, não bastasse tê-lo tornado /open-source/, a Wizards aproximou ainda mais o D&D de um software de papel ao batizar sua edição revisada de /3.5/. Os livros básicos do sistema - do Jogador, do Mestre e dos Monstros - foram relançados ano passado, incorporando várias sugestões dos jogadores e corrigindo algumas regras apelativas.
Acho que, para os antigos jogadores, o custo não compensa o benefício. A Wizards teria feito muito bem se também tivesse pensado esse /upgrade /de maneira informática e lançado, além da versão 3.5 /full/, uma espécie de /patch /para quem já tivesse os livros da terceira edição, um pequeno manual só com as alterações nas regras. Alguns livros jurídicos são vendidos assim: você compra o volume e ganha direito a quatro atualizações. Elas chegam semestralmente pelo correio, na forma de brochuras. E você que achava que Lei de Moore só existia para desvalorizar o seu processador, heim?
De qualquer forma, fica o exemplo: o D&D tem quase trinta anos de existência, e já se tornou assustadoramente canônico, com uma popularidade digna do /Windows /- mas sem aqueles problemas de travamento e com uma postura mercadológica muito mais saudável.
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