Vitória (ES), edição de 17 de janeiro de 2006    
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A Fé no Cinema
Em "A Menina Santa" o cinema fervoroso de Lucrecia Martel, a maior realizadora latino-americana da atualidade



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Por cima da narrativa de "O Pântano", trabalho anterior de Lucrecia Martel, pairava a notícia de uma dessas supostas aparições da Virgem Maria, que estaria se manifestando através de um desenho espontâneo surgido na caixa d'água de um povoado do interior da Argentina. Presente durante todo o filme como uma espécie de intromissão na história central, surgindo apenas através do noticiário que a família protagonista assistia, é na última cena, no último diálogo, que a manifestação da Virgem se justifica - não só dentro do universo ficcional de "O Pântano", mas como uma declaração de princípios da cineasta argentina. Duas primas conversam na piscina da casa cuja falência física e moral acompanhamos durante o resto do filme. Uma delas pergunta à outra onde tinha ido. Esta então responde que fora até o lugar em que aparecia a Virgem, mas que não tinha visto nada. Uma dica valiosa sobre a postura de Lucrecia Martel diante de suas histórias, e que em "A Menina Santa" (em cartaz no Cine Metrópolis) vira mesmo a matéria-prima de seu trabalho: é a própria existência das coisas (das emoções, dos desejos) que se realiza entre o "visto" e o "não-visto".

A lembrança de "O Pântano" é importante para a percepção de uma trajetória cumprida por Martel entre este primeiro filme e seu trabalho atual. Repetindo uma espécie de tônica dos grandes artistas, seu filme de estréia corresponde a uma dessas explosões que, revirando a pasmaceira anterior, dão início a algo completamente novo. Surge dessa explosão um cinema de vísceras, em alguns momentos quase animalesco, selvagem, de um barroquismo aparente. De várias formas, "A Menina Santa" aparece como a depuração desses sentidos, como a fase posterior à explosão em que, planetas já devidamente formados e girando em suas órbitas, parte-se para o estudo mais detalhado das relações que regem esse universo recém-formado. A diferença mais evidente entre esses dois momentos da cineasta é justamente o que evoca a noção do que existe entre o que se vê e o que não se vê. Ambos os filmes carregam uma sensação (meticulosamente construída) de tragédia anunciada, de um caminho irreversível para algo terrível. Em "O Pântano", filme seco não só pelo aridez do clima do lugarejo onde se passa a história, mas sobretudo pela maneira direta e incisiva como os assuntos são tratados, a tragédia se realiza em imagem. Vemos, no ápice das tensões, um menino sofrer um acidente fatal ao cair de uma escada. Mais que isso, vemos os primeiros ecos dessa tragédia na família do menino, uma série de pequenos trechos no encerramento do filme que mostram as reações dos parentes diante do acontecimento. "A Menina Santa", filme úmido tanto pela constante referência a uma piscina no hotel em que se passa a história quanto pelo desejo latente e quase incontido que toma aqueles que por ali passam, suprime a imagem da fatalidade, tão somente para reforçar sua inevitabilidade.

  
Foto: Divulgação
  
María Alche (no centro), é a menina santa de Lucrecia Martel
Por que não vemos o desfecho da estranha estória de uma menina muito religiosa que se acredita vocacionada a se entregar ao homem que a bolina no meio da rua? Filme de interstícios por excelência, "A Menina Santa" está sempre no meio do caminho entre o mostrar e o esconder, como que chamando o espectador para mergulhar nesse espaço que se abre. Em nenhum momento vemos a concretização dos poderes superiores da menina, mas olhando nos olhos de María Alche (e é sempre onde está a câmera de Martel, nos olhos de sua atriz principal), simplesmente acreditamos ser ela uma menina santa. São inúmeras as cenas em que há uma interação entre quem esteja dentro da tela e aqueles que estão fora dela; há ainda outras tantas tomadas a partir do reflexo dos personagens em um espelho, sempre a mediação de algum objeto ou mesmo nem isso, às vezes simplesmente não vemos a ação central de cada plano. E, no entanto, sabemos que ela acontece, sabemos da presença dos personagens em cena - sabemos não, "acreditamos" nisso. O que liga um plano ao outro, o que liga uma pequena estória a outra, o que liga a cineasta a seu público, mais que visualização, é a crença de que essas ligações são realizadas. Porque com Lucrecia Martel é assim: mais que arte (e, no entanto, o que vemos é arte das grandes), cinema é uma questão de crença.

Saiba mais!

"A Menina Santa" está em cartaz no Cine Metrópolis, no Cine Metrópolis Ufes, Vitória, às 15 e às 19 horas.

O filme "Pântano" pode ser encontrado nas locadoras em formato DVD. A produção tem 96 minutos de duração, legendas em português e espanhol e sistema Dolby Digital 2.0.

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