Folheando umas edições antigas da revista ProjetoDesign, me deparei com a seguinte colocação do arquiteto Paulo Casé (que, aliás, é autor de alguns dos melhores edifícios de Vitória, entre eles, o antigo Hotel Porto do Sol): "O objeto arquitetônico faz parte da paisagem, a qualidade da cidade é a qualidade dos seus prédios."
Imediatamente me recordei de uma outra frase que me chegou aos ouvidos ainda na Universidade de autoria de um arquiteto espanhol que já não me recordo o nome que dizia o seguinte: "Las personas tienem la arquitectura que merecem".
Se tomarmos Vitória como exemplo, tanto uma como a outra citação se tornam reveladoras. Porque se pudéssemos isolar as edificações do sítio natural veríamos que Vitória, com exceção de um ou outro edifício ou conjunto edificado, é uma cidade extremamente pobre arquitetônica e urbanisticamente. Digo isso sem medo de errar ou de parecer exagerado. Acredito que talvez alguns poucos, entre eles Faulkner e Joyce, poderiam entender esta relação extremamente conturbada com a cidade natal.
Entretanto em vez de escrever, decidi ser arquiteto. Surge então o problema inerente à profissão. Comparado a um edificio, a confecção de um livro (ainda mais se você pensar que existem outros meios de divulgá-lo como, por exemplo, a internet) é muito menos cara e trabalhosa. Sem contar que não existe um cliente, o leitor não têm nenhuma interferência direta na obra. Vocês podem estar pensando que estou reclamando da falta de dinheiro do cliente para executar as nossas soluções "mirabolantes". A questão é justamente oposta. Dinheiro em arquitetura não é problema e pode, até, se transformar numa solução. Porque pela lógica um cliente sem muitos recursos deveria ser mais aberto à discussão e à proposições alternativas, mais de acordo com seu orçamento. Entretanto, o cliente (de Vitória) não pensa duas vezes em se endividar para poder entupir sua casa ou escritório dos mais variados e caros revestimentos acreditando que isso agrege algum valor à arquitetura.
É disso que estou falando: o problema é cultural, não financeiro. Existem pouquíssimos clientes para a BOA arquitetura. Por isso, Vitória é uma cidade FEIA, por seus habitantes serem pobres culturalmente. Os que podem comprar arquitetura, são os novos ricos, que escutam pagode, axé e música sertaneja e entopem os teatros (escassos e mal equipados) da capital quando chega alguma peça de um ator global. Mas como disse o anônimo arquiteto espanhol: As pessoas têm a arquitetura que merecem.
Ao ver essa situação frustante tive a idéia brilhante de procurar trabalho no poder público acreditando ingenuamente que a mentalidade seria diferente. Entretanto com raras exceções o que se vê é uma contaminação generalizada de conceitos da iniciativa privada. Ou seja, ao invés de se buscar uma linguagem diferenciada, mais condizente com seu papel de representante do povo em geral (e não de setores específicos), a prefeitura (e seus arquitetos) faz projetos que mais parecem reproduções mal ajambradas dos edifícios de escritórios da Enseada, com vidros verdes e alucobond. Muitos recursos e pouco sentido. E os projetos de habitação social? Cada vez mais fica difícil distinguir um edifício da Metron de um do Inocoops...
Desculpem-me o clima da coluna de hoje. Parece lamentação, mas não é. Até porque, apesar de parecer, o ofício de arquiteto não é tão desagradável assim.
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